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Ex-assessora da ABUB na Centro-Oeste, Cide Quixabeira partiu ao céu

Missionária foi exemplo de força e afeto para seus muitos mentoriados

Por Quézia Alcantara, serva de Cristo, jornalista cristã e amiga da Cide

No dia 18 de outubro de 2018, a ex-abeuense e ex-assessora Iracides Vieira Quixabeira, a Cide, faleceu, vítima de um tuberculose renal. Ela integrou a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) na região Centro-Oeste desde 1971, dedicando-se como mentora por muitos anos e posteriormente ocupando o cargo de coordenadora da região de setembro de 1981 a novembro de 1982.

Cide nasceu em 5 de julho de 1950 na cidade de Porangatu, norte de Goiás. Ainda adolescente, saiu da pequena cidade em 1967 e mudou-se para São Paulo (SP) para estudar e trabalhar. Em 1969 foi para Goiânia (GO) e ingressou no curso de letras da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Como integrante da ABUB Centro-Oeste, Cide organizou grupos locais de evangelização e oração nas diversas unidades das universidades em Goiânia. Ali eram ministrados estudos bíblicos indutivos evangelísticos que ela preparava para os líderes. Iracides também criou apostilas com estudos para os coordenadores aplicarem em seus grupos.

Edmilson Araújo Pires, estudante de engenharia que integrou o grupo da UFG, afirmou que, para ele, Cide extrapolou todas as expectativas de qualquer mentoreamento cristão que conheceu. “Me converti em 1980 aos 18 anos e fui acompanhado por ela enquanto estudante até 1985. Desde então, até nosso último contato telefônico em julho deste ano, ela jamais deixou de me ligar para saber de minha jornada e de minha família. Seu amor e seu afeto eram atributos divinos de enorme impacto espiritual”, contou.

Iracides Quixabeira, acompanhada de Antonia Leonora Van der Meer, a Tonica, que coordenava a ABUB de Brasília (DF), atuou para que o movimento se consolidasse no Planalto Central em uma época difícil na história política do país. Eram anos de ditadura militar e a Cide precisou de fé e coragem para realizar os grupos bíblicos na UFG.

Em meados dos anos 1970, por mais de uma vez, após coordenar o estudo bíblico no campus Samambaia da UFG, a missionária Cide foi “chamada” a acompanhar agentes infiltrados do regime militar para responder questionamentos diante das palavras desafiadoras, à luz da Bíblia, que trazia àqueles universitários.

Frágil, pequena e magra, ela contava que as pernas tremiam naqueles momentos prevendo ser presa ou torturada. Deus, no entanto, enviou certa vez um anjo na forma de um dos reitores da UFG, o irmão da 1º Igreja Batista em Goiânia, Dilson Antunes. Ele a socorreu e evitou um destino horrível que tantos professores e acadêmicos tiveram durante os anos de ditadura militar no Brasil.

Mesmo após o término de sua participação na ABUB, ela continuou seu trabalho como educadora cristã e mentora em diversos grupos. Um desses foi a Escola Bíblica Dominical da Igreja Cristã Evangélica do Jardim América, onde nos conhecemos. Éramos uns 20 jovens recém-formados na década de 1990 e não tivemos a chance de participar da ABUB, pois não havia um grupo ativo na época em que estudamos no campus Samambaia.

Iracides Quixabeira, com seu conhecimento e especialidade em dinamizar grupos jovens para uma vida cristã para além de um fundamentalismo religioso eclesiástico, nos abriu os olhos da fé que era até então muito sectária, pragmática e ritualística. Não é que não éramos convertidos. Da minha parte, pelo menos, eu tinha firme convicção de que servia àquele que deu sua vida por mim, o Cristo ressurreto, filho do Criador. Porém os condicionamentos e a capa cultural-religiosa nos faziam ter uma vida cristã mecânica e ritualística.

Foi a Cide que, à maneira de John Stott, nos fez ver que o cristão pode e deve pensar. Que a fé em Cristo não é e não pode ser cega. Que o Senhor nos fez corpo-intelecto/espírito-alma. Nos apresentou à Francis Schaeffer, Russell Shedd e C.S.Lewis. Ela nos fez entender, e creio que usada pelo Espírito Santo, que podemos trazer os mais profundos questionamentos diante daquele que é toda a sabedoria e de quem emana o conhecimento e os mistérios da vida e da criação.

De temperamento forte, firme e determinado, essa mulher de Deus nos ensinou sobre coragem e confiança, especialmente quando teve câncer por duas vezes, sendo que na primeira vez também enfrentou um divórcio, mesmo doente. Quando desenvolveu lúpus tornou-se mais frágil ainda. Sua fé, no entanto, continuava firme naquele que é poderoso para fazer mais do que pedimos ou imaginamos e sua confiança transparecia àqueles que com ela conviviam. Na celebração fúnebre, esse testemunho foi contado e reafirmado por diversos amigos.

Já nos anos 2000, a Cide conviveu com o Grupo de Vivência Ecumênica de Goiânia, no qual fez grandes companheiros de oração, demonstrando que àquele que nos une é maior que as diferenças impostas por instituições religiosas e humanas, necessárias, mas não determinantes para o exercício de nossa cristandade.

No ano passado foi convidada a lecionar no novo curso de Especialização em Missão da Igreja do Seminário Teológico Batista Goiano. Também participava ativamente da implantação da Igreja Batista Luz em Goiânia.

Diante da tristeza pela perda dessa mulher tão especial, a fala da Tonica nos conforta: “Ficará um vazio no meu coração, a falta daquela chamada telefônica para bater um papo gostoso. Mas ela descansou, cumpriu sua tarefa, e está junto a seu Senhor que amava e servia com fidelidade”.

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