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Negro,​ ​eu?

Os​ ​facilitadores​ ​do​ ​projeto​ ​ABUB​ ​Contra​ ​o​ ​Racismo​ ​participaram​ ​de formação​ ​especial​ ​em​ ​junho

Com​ ​apoio​ ​da​ ​Tearfund,​ ​a​ ​Aliança​ ​Bíblica​ ​Universitária​ ​do​ ​Brasil​ ​anunciou​ ​em abril​ ​o​ ​projeto​ ​"Igreja,​ ​Universidade​ ​e​ ​Racismo:​ ​respondendo​ ​aos​ ​desafios​ ​de uma​ ​juventude​ ​silenciada​ ​e​ ​exterminada"​ ​e​ ​edital​ ​para​ ​facilitadores. Foram​ ​selecionados dez facilitadores com algumas alterações da proposta inicial.

Em São Paulo (SP), Alice Matos e Gemima Jacinto foram ambas aceitas para a cidade e sua região metropolitana. O mesmo aconteceu com Natal (RN), com Debora e Lucas Barbosa. Em Vitória (ES), Timóteo André; em Salvador (BA), Vanessa Santos; Aracaju (SE), Stefany Santos; e João Pessoa (PB), Marília Cavalcante.

Já em Belo Horizonte (MG) ficou Luciana Petersen, que apesar de não morar na cidade foi indicada pelo grupo e trabalhará com eles. Porto Alegre (RS) foi substituída por Curitiba com Andrea Carla como facilitadora. Fortaleza (CE), Maceió (AL) e Goiânia (GO) não tiveram inscritos e aguardam indicações.

Para​ ​capacitá-los,​ ​o​ ​primeiro​ ​Encontro​ ​de​ ​Formação​ ​de​ ​facilitadores​ ​do​ ​projeto também​ ​chamado​ ​de​ ​ABUB​ ​Contra​ ​o​ ​Racismo​ ​ocorreu​ ​nos​ ​dias​ ​24​ ​e​ ​25​ ​de junho.​ ​Os​ ​participantes​ ​selecionados​ ​se​ ​reuniram​ ​em​ ​Vitória​ ​(ES)​ ​para​ ​estudar​ ​a relação​ ​entre​ ​Bíblia​ ​e​ ​negritude,​ ​o​ ​pecado​ ​estrutural​ ​do​ ​racismo​ ​e​ ​a​ ​realidade das​ ​questões​ ​raciais​ ​no​ ​Brasil.​ ​Facilitadores​ ​também​ ​planejaram​ ​as​ ​próximas ações​ ​do​ ​projeto,​ ​que​​ ​dura​ ​até​ ​o fim​ ​de​ ​2017. A formação dos selecionados do Nordeste acontecerá nos dias 22 e 23 de julho, em João Pessoa.

A​ ​partir​ ​de​ ​reflexões​ ​durante​ ​o​ ​evento,​ ​confira​ ​abaixo​ o ​texto​ ​de​ ​um​ ​dos facilitadores.

Descobrir-se negro

Por Marcos Abraão Borges Santos*

Hoje é 27 de junho de 2017 e foi o último dia do encontro de capacitação dos facilitadores do projeto ABUB Contra o Racismo. Respiro fundo agora ao escrever este texto e faço força pra não escrever que “não sei como foi pra mim estar aqui”.

Medos ecoam, o maior deles é o da legitimidade, afinal de contas quão legítima é a militância negra pra mim? São tantas questões a serem pensadas. Sou negro? Meu corpo, minha pele e meu cabelo, minha história, minha família e as coisas tristes que lembro de terem sido ditas. Negra vulgar, bando de preto, coisa do demônio, palha de aço, alisa o cabelo, fica loiro... o bom é ser branco.

De repente, meu cabelo cresceu, não por acaso ou por não querer gastar dinheiro, mas porque estava longe da voz de autoridade da minha família e podia finalmente decidir sem o peso do “tá feio com esse cabelo, vai cortar”. Não só isso, mas meu tio cabeleireiro sempre cortou o meu cabelo e é usuário de drogas. Após eu ter ido pra Noruega [no ano passado], ele largou a reabilitação e eu mantive meu cabelo crescendo como forma de lembrar dele e orar por ele. Enfim, com essa escolha em algum momento meu cabelo apareceu e não era o feio a ser cortado. Era novo.

Lembro de noruegueses pedirem pra tocar meu cabelo e dizerem: “O que você faz deixar ele assim?” “Nada não, ele é assim.” Lembro da Lydia, da Uganda, dizendo que eu não era brasileiro porque eu não parecia com as amigas loiras do sul do país. Lembro de ter sido chamado pelo Daniel de “ei cara do afro”. Lembro de ter sido comparado com o Marco, de Madagascar, e descobrir que somos irmãos de cabelo. Me vi negro. Uma foto com a Happiness, do Kenya, marcou o dia em que me vi negro, com o afro e barba ao lado dela. Lembro de alguns comentários na foto, perguntas se era mudança de estilo ou preguiça de cortar o cabelo.

Em alguns momentos eu me assustei, como quando Juliana Vita me chamou de negão. Ela comentou o quanto eu parecia um determinado cara de uma série sobre hip-hop na Netflix por conta do cabelo. Me vi negro. Sempre quis sê-lo. Lembro de quando meus tios de parte de mãe me chamaram de Gasparzinho por ser muito branco, lembro de como do outro lado da família me sentia mal por não ter cabelo liso.

Nesse fim de semana, me vi abraçado, me vi incluído, me vi sendo eu. Não escondi minha história sobre como eu seria pardo na certidão, mas minha avó disse que era pra escrever “branco e que eu era pra me virar de ficar branco”. Talvez eu tenha vivido à sombra disso quando minha mãe lavava meu cabelo com camomila pra ficar loiro, mas ficava “mais seco”.

Eu ouvi Deus dizer que não errou em me fazer do jeito que me fez, mas já me questionei porque sou uma “mistura”, que não encaixava em um nem outro. De ficar triste, de relaxar o cabelo, de não aceitar o cabelo porque “achava” ele feio.

Ontem um irmão meu, o Timóteo, penteou meu cabelo e, em muito tempo, me vi sem medo de alguém descobrir que meu cabelo embaraça, que a gente tem que ter paciência, resistência e força pra pentear. Que cabelo arma quando penteado e que isso não é um problema. Meu cabelo é bom. Lembro da Lydia me fazendo tranças no cabelo e dizendo o quanto o meu cabelo era bonito. Algo que eu nunca ouvi em casa.

Eu não sei porque Deus permitiu que eu passasse pela Noruega e logo em seguida viesse ao ABUB Contra o Racismo, mas acho que tenho um lugar aqui na luta de uma questão que adoece os olhos com que nos vemos.

As coisas que acontecem no dia a dia e são apagadas pela correria são mantidas lá no fundo da alma e lá se enraízam os valores, os sonhos, os medos... O que nos leva a uma negação de nossa identidade, que remonta a anos de opressão escravocrata, desrespeito, desigualdade. Ninguém quer se identificar com os menos favorecidos e o que é chique é o “Senhor Branco” materializado hoje no padrão europeu exportado ao mundo como solução de todos os problemas.

Pois voltemos ao reconhecimento de quem somos, das dores que sentimos, dos gritos que entalados no peito gritam justiça pela mãe negra oprimida pelo pai branco. Deixemos o cabelo crescer sem entender um tipo como padrão, mas entendendo a diversidade do que somos.

Ainda tenho questões surgindo na minha mente no exato momento em que a caneta toca este papel, mas me sinto negro. Me sinto negro quando me vejo nos lugares em que vivo, quem acesso, onde moro, a igreja que vou, o cabelo que tenho, embora saiba-me como fruto de movimentos diversos. Avós negros, brancos, indígenas, criados noutros tempos e de outros modos que convergiram em mim.

Nisso tudo, talvez eu tenha só tocado em algo que, ao ter sido vivido por mim, seja a porta para a percepção disso como questão presente e incorporada à psiquê. Afinal, essa relação em que o biológico-social-histórico se faz constituir no sujeito é objeto de estudo da psicologia. O cabelo, a pele, a raça que são postos com outros no social e que é transmitido a indivíduos, homens, mulheres, crianças que carregam em si estigmas dos quais todos precisamos ser libertados.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”

*Marcos​ ​é​ ​da​ ​ABU​ ​São​ ​Luís​ ​(MA)​ ​e​ ​acaba​ ​de​ ​retornar​ ​do​ ​intercâmbio​ ​da​ ​ABUB-NKSS, na​ ​Noruega.

Nota final: as situações e pessoas descritas aqui são reais, ore pelo tio do Marcos, por sua família e pela mudança de vidas afetadas pelo racismo, pecado estrutural na história.

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