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Dias em que nos adiantamos ao sol

Semana da Consciência Negra

*texto elaborado pelo Coletivo Independente de Estudantes e Profissionais Negros/as da ABUB - ABUB Negritude

Cabelos pro alto! Cabelos crespos por todos os lados, black powers, rastafaris, dreadlocks, canecalons, cabelos crespos coloridos, diversos em tom, espessura e modelos. Essa é a impressão de quem na adolescência estava acostumado a ver ou viver com cabelos “quanto mais lisos melhor”, aflorarem em suas formas originais ou mais diversas. Especialmente no Brasil deste século (Ef. 3) uma nova forma de se ver inaugurou os olhares de muitos, abriram pequenas brechas de novas e empolgantes possibilidades diante de várias outras dificuldades cotidianas ancestrais.

Segundo o IBGE em 10 anos o número de pessoas que se autodeclararam Pretos e Pardos - portanto a população negra - cresceu de 48,1% para 53% da população total . Esse dado faz perceber que o Brasil é um país de maioria negra e é o país que mais tem negros fora da África. Esse crescimento tem se dado exponencialmente desde o ano 2000 quando 38,5% do povo brasileiro alcançado pelo IBGE reconheciam sua negritude .

Tal mudança se dá a partir da tomada de consciência do que significa Ser e Estar no mundo enquanto Negra ou Negro no Brasil. Uma realidade muito difícil, porque em enorme medida nos revela ser quase sempre associada à pobreza, ao racismo e a violência e serem, portanto, elementos estruturantes da desigualdade social - base da nacionalidade-, a base negada do que significa ser brasileira ou brasileiro  e a reboque, a possível base de todos os outros rótulos identitários que nos fazem sermos quem somos: jovens, cristãos, universitários...

Percebendo que todos nós negros, brancos, índios ou orientais fazemos parte de uma sociedade que está estruturada pelo pecado do racismo - assim como pelo pecado do machismo-, ou se quisermos dizer de outro modo, pelo preconceito racial que continua desigualando a todos nós (Is 59. 1-4). Assim somos convidados como cristãos e cristãs a diversos desafios.

Voltemo-nos ao exemplo de Cristo, e aqui está o primeiro desafio, se nos pegamos imaginando Jesus como o homem alto de cabelos longos e lisos, pele clara e olhos azuis, respire fundo, esse não é o Cristo filho de Deus encarnado. Cristo nunca foi branco em sua passagem pela terra, não poderia ser branco, os hebreus da bíblia nunca foram brancos porque assim como os árabes são de origem semita. Olhar o filho de Deus, não como está pintado nos quadros e representado nas imagens, é um exercício cotidiano, é o bom e velho exercício de tirar o verniz da figura de Jesus . Olha-lo como líder camponês roto, que nega o poder autoritário das instituições políticas e religiosas engessadas (Lc 20. 19-26 e Mt 23. 1-12); tem entre seus seguidores pescadores sujos (Mt 4. 12-25), mulheres difamadas (Jo 8.1-11 e 4.1-30), doentes (Mc 1. 40-45), cobradores de impostos arrependidos (Lc 19.1-10) e usa pequenas histórias em seus ensinamentos que se apropriam das realidades- inclusive as injustas- de seu tempo para explicar o Reino dos Céus, é tomar consciência do que significa Ser e Estar no mundo enquanto seguidores Dele.

Ao aceitar o desafio de enxergar a Bíblia como um livro de capa preta assim como de folhas negras que contém narrativas de um povo marginal - como os povos negros de nossa História - ao qual Deus amou a tal ponto que a partir desse povo trouxe a mensagem de salvação a todos os outros povos de maneira não dominadora e autoritária como é o caso de Rute, de José do Egito ou mesmo os relatos presentes em Atos dos Apóstolos assim como tantos outros, torna a todos os seguidores Dele mais respeitosos e cuidadosos com todas as pessoas de outras culturas e ajuda a desfazer o mal Imperialista que o cristianismo incorporou desde ser tornado religião, e esta a religião oficial do maior e mais longo Império de todos os tempos. Quando olhamos o mundo e a vida de outra maneira sem nos conformarmos tudo se transforma.

Deixar para depois tal temática tão estruturante de nossa sociedade é como preterir o sol. É deixar para depois o combate ao pecado do racismo institucional e social, é preterir a luta por igualdade de oportunidades na universidade e no mundo do trabalho com cotas raciais e sociais, é preterir a mortalidade elevadíssima de jovens negras e negros em nossas periferias, é deixar para depois o acesso desigual à saúde das pessoas de hoje, é preterir enfim a nós enquanto ABUB.

Podemos afirmar que a ABUB incentiva uma reflexão que nos ajude a pensar segundo nossa realidade local, regional, social e racial, desdobramentos lógicos de um movimento que presa pelo protagonismo estudantil cotidiano de universitários que querem promover o Cristo ressurreto para além das instituições eclesiais clássicas. Uma maior abordagem sobre o tema ligada a negritude e toda sua abrangência cada dia ganha mais força mediante jovens negras e negros que professando uma fé viva, dinâmica e transformadora do mundo pela renovação de nosso entendimento, em todos os cantos de nosso país onde grupos da ABUB se reúnem. Venham conosco nessa caminhada, porque Cristo continua a dizer antes que o sol nasça: Vinde a Mim!...


**Não é à toa que esse texto foi postado. Hoje, dia 20/11, se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.

Queremos então partilhar alguns EBI’s para que nessa semana (ou quando conseguirem) possam aprofundar esse tema com seu núcleo da ABU. Faça o donwload deles aqui.

1. Fé, Bíblia e Discriminação – Pedro Grabois

2. O “Sarará crioulo”: A gente e com a gente – Luana Gomes

3. Racismo mata, e o nosso silêncio, promove o quê? – André Ras Guimarães

4. A Sulamita e a Poesia de uma Mulher Negra – Paloma Santos 

5. A Rainha do Sul, em toda sua glória – Luciana Peterson

1 Comentário

Parabéns!

Que tenhamos mais textos como este para que tenhamos um despertar em relação ao que somos e fomos chamados a ser!

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