Entre nós

O retrato de um campo em crescimento

Pesquisa com participantes da missão revela características da juventude atual

Por Jessica Grant

Quem é esta geração? Quem é o estudante que o secundarista e o universitário da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) desejam alcançar nos dias de hoje? E o profissional? Com 60 anos de história, não é só a partir do passado que devemos caminhar, mas olhar para o presente também é necessário para conhecer o contexto no qual a ABUB se insere.

Para isso, perguntamos a 16 abepenses, abeuenses e abessenses de todas as regiões do nosso movimento, a partir de suas percepções, como é a geração de não cristãos com a qual eles convivem e são amigos. De acordo com o Censo de 2010 (IBGE), os jovens entre 15 e 29 anos constituem quase 27% da nossa população, que já passou dos 206 milhões no 1º trimestre deste ano (PNAD). Somos muita gente! No entanto, dentre os jovens de 18 a 24 anos, apenas pouco mais de 30% está matriculado em algum nível de educação. São cerca de 1,1 milhão de jovens que frequentaram cursos de graduação.

Se os estudos bíblicos são algumas das atividades mais características dos grupos da Aliança Bíblica Universitária, de Secundaristas e de Profissionais (ABU, ABS e ABP), as respostas dos entrevistados mostraram que eles não têm sido o ponto de conexão com esta geração. Mas os debates e atividades artísticas são as ações dos grupos que mais atraem os não cristãos, seguidas de palestras e, apenas então, dos tradicionais estudos bíblicos. Atividades como o Fórum Literário de Juiz de Fora (MG) e Duque de Caxias (RJ), a peça Experimento Marcos por diversas cidades e a ação da ABU Salvador (BA) na semana de provas mostram diferentes formas em que os grupos podem ser relevantes.

Para alcançar esta geração nas ações dos grupos locais é preciso compreendê-la. Ao perguntarmos aos entrevistados que atividades seus amigos mais se envolvem, grande parte registrou que têm apreço pelo consumo de bebida alcoólica, especialmente em barzinhos, baladas e festas. Quando ficam em casa, séries ganham mais atenção. Ainda dentre o cinema, as viagens, os esportes e shows, sempre há o desejo de estar com seus amigos.

Para alguns, seus colegas ainda gostam de atividades artísticas, de dançar e até mesmo do envolvimento nos protestos. Da ABU Brasília (DF), Mariana Diniz conta sobre o lado cultural de seus amigos: "[Eles] gostam de viajar e conhecer gente nova, desenhar, pintar e dormir. Relaxar e ter conversas profundas com pessoas interessantes. Atividades relacionadas com arte e cultura".

Já quando se trata do ambiente escolar, universitário ou profissional, as atividades acontecem nos espaços mais tradicionais. Muitos veem seus amigos nos centros acadêmicos/grêmios ou em outras atividades políticas, nas atléticas ou em outras práticas esportivas, além dos espaços de estudos, pesquisa e vida acadêmica, como projetos de extensão, monitoria e empresa júnior. "Todos estão envolvidos ainda que seja voluntariamente em grupos de pesquisa. [Também estão] na militância política, seja em partidos políticos, em coletivos e no movimento estudantil, ou seja sustentando e defendendo seus posicionamentos", compartilha a universitária da ABU Salvador (BA) Rithiane Almeida.

Todos têm seus sonhos e medo

Sucesso profissional e financeiro está no topo dos sonhos desta geração, até mesmo para os estudantes de ensino médio. Alguns ainda pensam no que está mais perto, com a nota do Enem ou com a graduação, mas estabilidade financeira e suas recompensas, como casa, carro e viagens, estão sempre em mente. Alguns sonham em ter menos ansiedade e outros em serem felizes, poucos querem família, embora mais anseiam por relacionamentos.

Naturalmente, os medos refletem o oposto: perder o emprego, não conseguir terminar a escola ou universidade, se frustrar na profissão ou não conseguir sustentar-se depois de tanto estudo. Mas há também o receio da morte, de si mesmo ou de entes próximos, e de relacionamentos. Mariana também ressalta que alguns de seus amigos temem as maldades do mundo. Outra estudante, aqui anônima para proteger seus amigos, foi prática e citou medos atuais de seus colegas mais próximos: assumir sua homossexualidade para a família e o acirramento dos conflitos familiares levando a tragédias.

Marcus de Oliveira, da ABU Goiânia (GO), resumiu o que seus colegas encaram na universidade em termos emocionais: "Depressão, pressão, ansiedade, desânimo, medo". A competitividade deixa a pressão acirrada, e ela envolve a todos. A incerteza quanto ao futuro também foi destacada, além de cansaço e da dificuldade em não ver o potencial prático no que estudam.

Mas nem tudo é ruim, há boas emoções também quando conseguem concluir algumas etapas ou recebem elogios e reconhecimento por seu trabalho, alegrias por fazerem o que gostam e por seus amigos.

Muito além das atividades, a amizade, portanto, e a construção sólida de relacionamentos verdadeiros continuam sendo uma ponte importante não só para compreender, mas também para amar e tocar esta geração. Questões emocionais podem ser abordadas pelo movimento, como as palestras sobre depressão realizadas por grupos como ABU Caruaru (PE) e Teresina (PI), ou ainda a Semana da Esperança, organizada pela ABU Viçosa (MG) e desde 2016 pela ABU Recife (PE).

Trabalhar o sonho do sucesso profissional é importante, inclusive para os cristãos. A ABP São Paulo, por exemplo, organiza momentos como o Encontro Vocacional de Profissionais, e o grupo de todo o Brasil já fez uma oficina online abordando o poder no mercado de trabalho.

Já nem todos têm suas crenças

A indiferença é a maior reação que os participantes da ABUB percebem em seus amigos frente a religião, seguida em menor escala por rejeição, preconceito e intolerância. Alguns se interessam ao verem a prática dos cristãos, enquanto outros respeitam mas veem como ignorância. Muitos percebem que fé é tratada como algo apenas pessoal, ainda que seus amigos sejam religiosos e estudantes de suas religiões.

Laura Rizardi, da ABS Sorocaba (SP), comenta que "a maioria vê como algo relativizado, em que cada fé é algo genuíno. Alguns já tem uma visão bem negativa da religião, principalmente a cristã; muitos já se decepcionaram com alguma igreja". Daniel Vasconcelos, da ABP Uberlândia (MG), destaca que "duas posturas principais são mais recorrentes: alguns tem a postura de que fé e religião não se discute (e muitas vezes não se conversa, algo muito pessoal) e alguns gostam bastante de conversar sobre, dando boa abertura de diálogo".

O campo missionário estudantil está em crescimento

Se já percebemos decepções para serem tratadas e pessoas abertas ao diálogo, ainda há muito o que dialogar. Dados mostram que tanto o campo de atuação da ABS quanto o da ABU estão em constante crescimento.

No Brasil há mais de 28 mil escolas de Ensino Médio de acordo com o Censo Escolar (INEP, 2016), um aumento de 11,6% nos últimos oito anos, sendo 68,1% delas estaduais e 29,2% privadas. Quanto às matrículas, são 8,1 milhões, com 22,4% no período noturno - um grande desafio para os grupos da ABS. 12,5% dos matriculados estão em escolas privadas, que cresceram 4,5% nos últimos oito anos.

Já conforme o Censo da Educação Superior (INEP, 2014), há mais de duas mil instituições de ensino superior, 78,1% privadas (87,5% em 2015). Para os grupos da ABU, são essas instituições particulares que apresentam um grande desafio de inserção e manutenção dos núcleos. Quanto às áreas de conhecimento, a maior é a de Ciências Sociais, Negócios e Direito (29,9%), seguido em 23,8% pelos cursos da área de Educação.

E se o ensino superior é nosso principal campo missionário, no qual mais temos grupos, ele tem crescido: só em 2014 havia 78,5% de vagas novas, totalizando mais de 8 milhões. Entre 2005 e 2015, o aumento no total de matrículas foi de 75,7%. Mas enquanto houve quase 8 milhões de matrículas em 2014, apenas pouco mais de um milhão concluíram a graduação.

Embora a comparação entre os censos de 2000 e 2010 (IBGE) mostre que houve ampliação no acesso à educação superior entre jovens (18-29 anos) de renda mais baixa, a maioria dos que estão nas faculdades ainda pertence a famílias com mais de dois salários mínimos per capita (veja estes e outros dados do IBGE neste documento do IPEA). Mas ainda que tenham acesso, os números indicam que a vida financeira dos estudantes influencia seu abandono do ensino superior. No total, 42% evadiram sem concluir os estudos e, entre estes, cerca de 42% tinham renda domiciliar per capita de até 1,5 salário mínimo (IBGE, 2010).

Não só o abandono, a crise e dificuldades financeiras podem estar afetando o próprio início no sonho do diploma. Em 2015, o Censo da Educação Superior (INEP) mostrou a queda de novos alunos no ensino superior tanto na rede pública (-2,6%) quanto na rede privada (-6,9%) entre 2014 e 2015. Além disso, os desafios que cercam esta geração de estudantes vão muito além, e também refletem pecados de nossa sociedade, como o racismo (veja mais dados aqui).

Apesar de sermos maioria urbana, a maior parcela dos jovens estuda em cursos de graduação localizados em cidades do interior, 75,3% entre os jovens de 18 a 29 anos (IBGE, 2010). Também vemos isso na grande quantidade de grupos da Aliança Bíblica Universitária filiados por todo o país fora de capitais: 92 dentre 114.

Um novo grande desafio da missão estudantil é o aumento da modalidade de educação a distância, grande parte entre cursos de licenciatura. O número de alunos cresceu (3,9% entre 2014 e 2015) e atingiu quase 1,4 milhão em 2015, 17,4% do total de matrículas da educação superior.

Em resumo, são temas como o acesso e a evasão do ensino superior, bem como a pressão, ansiedade e depressão em todos os níveis que cercam os estudantes contemporâneos e que tornam-se desafios a serem abordados pelos abeuenses, abessenses e abepenses. A questão é como mostrar uma vida muito além do foco no sucesso profissional e financeiro, driblando o desinteresse e a indiferença e apresentando a esperança eterna em Jesus. Isso sem contar que este perfil não muda tanto quando falamos dos próprios cristãos, fazendo também necessário o investimento na formação dos missionários da ABUB para que firmem sua fé na Palavra e cresçam em maturidade espiritual e emocional.

A inserção dos grupos nos períodos noturnos e nas universidades privadas, bem como entre os estudantes do ensino a distância, são outras dificuldades a serem encaradas e vão muito além dos jovens e também tocam os adultos que estão nestes meios. Para refletir mais, confira como os estudantes e profissionais do movimento querem responder a esta realidade na carta que escreveram ao Encontro de 60 anos da ABUB.

Reflita: É uma geração completa! Leia João 17:13-19 e pense sobre qual é este mundo para o qual Jesus Cristo nos enviou.

Ore: Com o campo em crescimento, leia Lucas 10:1-2 e peça que o Senhor mande mais trabalhadores para a colheita.

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