Entre nós

O salmo de Raíra: como Deus salvou uma estudante

A estudante Raíra Iuna Lopes acredita que a Aliança Bíblica Universitária deve estar no campus para mostrar Deus aos estudantes. Afinal, foi este o papel que o movimento missionário estudantil teve em sua vida, quando ela foi buscar entender o Deus que estava falando com ela por meio dos Salmos.

Raíra e sua família frequentavam, esporadicamente, a igreja católica e um centro de meditação hindu, mas ela tinha abandonado ambos ao entrar na Universidade de São Paulo (USP) para estudar veterinária em 2013. Em 2015, ela foi pela primeira vez numa reunião da ABU Pirassununga (SP), onde compreendeu o evangelho e cresceu na fé, com os altos e baixos normais da caminhada cristã.

Neste semestre, Raíra está num intercâmbio nos Estados Unidos e já encontrou grupos cristãos para conviver e impactar a universidade de lá. Conversamos com ela para descobrir como a ABUB tem alcançado estudantes para Cristo, impactando e transformando suas vidas, assim como foi com ela.

Raíra (que está tirando a foto) e o grupo da ABU Pirassununga (SP)

"É importante um grupo que fale o que está faltando"

Como você conheceu a Cristo e a ABUB? Qual é a sua história?
A minha conversão foi no finalzinho de 2015. Eu já tinha crises depressivas desde criança, mas não sabia o que era, e mais ou menos no começo de 2015 fui ao psiquiatra do campus. Comecei a desconfiar que tinha [depressão] quando entrei na faculdade. Foi quando comecei a me tratar com antidepressivo. Perto do fim do ano, viajei e esqueci o remédio. Fiquei quatro dias sem e tive a pior crise, cheguei a não querer mais viver. Não tentei me matar, mas falei pra minha mãe que só estava viva porque eles ficariam muito tristes se eu não estivesse, mas não tinha mais vontade de viver. Eram picos, em que eu estava bem e de repente tinha esses pensamentos, esses sentimentos. Nessa altura, minha mãe me deu um livro do padre Marcelo Rossi, Philia, e, como ele teve depressão, abordava muito isso e a nossa necessidade de Deus. Mas estava muito mal e não conseguia absorver o livro. Quando terminei de ler, peguei uma Bíblia católica que tinha em casa e comecei a ler os Salmos. Comecei a ouvir Deus falando comigo, comecei a sentir ele me consolando, ele me ouvindo. Conforme lia, chorava e clamava, eu comecei a sentir que aqueles clamores eram meus também, sabe? [Na época, Raíra deixou um salmo na parede de seu apartamento, nós adicionamos ele no final da entrevista.] Que as minhas dores estavam descritas ali. Foi quando lembrei que tinha dois meninos da minha sala que iam nas reuniões da ABU.

Eles comentavam que estavam indo ou vindo de um estudo, e me chamaram duas vezes. Mas eu falava: “Ah, não, isso não é pra mim”. Quando o Ivan [Lange] me convidou, eu falei: “Isso é tipo de religião?” Ele falou que podia ir [gente de] qualquer religião. Aí falei: “Ah, não, mas acho que não é pra mim”. Quando comecei a sentir Deus quebrantar meu coração, falar comigo, eu os procurei e perguntei quando era a reunião. Era no dia seguinte, uma quarta-feira. Encontrei o Felipe Rós na biblioteca, perguntei o horário e eu fui. Na verdade, ele me falou um horário mais cedo, não sei se estava com medo que eu me atrasasse, falou cinco ou dez minutos mais cedo, e eu fiquei lá e não tinha ninguém. Aí fiquei preocupada [risos]. Mas depois apareceu o pessoal.

Nesse dia não foi um estudo bíblico indutivo (EBI). Era pra ser um EBI e alguém esqueceu de levar, mas eu nem sabia disso. Então foi só um texto do [site] Voltemos ao evangelho, “Quem me livrará de mim mesmo”. Falava justamente dessa questão de autossabotagem, [que] era muito o que eu vivia. Eu criava valores, conceitos pra continuar minha vida, e isso era o certo. Eu vivia daquela forma até que chegava num ponto que desabava de novo, que não fazia sentido pra mim, me arrependia de muitas coisas que tinha feito, me sentia um lixo e criava novos conceitos. Depois desmanchava de novo. Vivia nisso e não aguentava mais. Quando comecei o tratamento da depressão, tinha muita esperança de que não iria viver isso de novo. Por isso, quando tive essa crise mais forte, eu falava: “Não, eu não vou aguentar, se for pra viver o resto da minha vida assim, eu não quero mais”. Porque todo ano eu tinha pelo menos uma crise.

O dia seguinte era o Dia Mundial do Estudante, e eu fui também. E era votação da nova diretoria, eu não entendi nada. Mas teve uma oração. Eu fiquei em silêncio, a galera orou em grupos, abraçados em rodinhas. Já estava com esperança, estava sentindo que era ali que eu encontraria a solução pra minha vida. Eles me chamaram pra ir no Conselho Regional [CR, evento do governança da região], que foi em São José do Rio Preto (SP). Foi quando eu ouvi o evangelho. Na verdade, já tinha ouvido nas missas, mas foi lá que eu realmente entendi e acreditei. Quem pregou primeiro foi o [assessor regional] Josué [Bratfich]. Vieram milhares de coisas na minha cabeça, milhares de pensamentos, e a galera super me ajudou. Eu sentava na hora do almoço, conversava e perguntava várias dúvidas. A galera respondia, não titubeava. Acho que era realmente o Espírito Santo agindo, porque hoje eu vejo que [apesar de já ter aprendido muita coisa] às vezes tem pergunta que você dá uma vacilada. A galera não vacilava, a galera respondia super claramente. No horário livre, as meninas me chamaram pra ir dançar forró e eu não consegui ir porque estava com dor de cabeça do tanto que eu estava absorvendo, sabe? Chorei bastante no quarto, também estava saindo de um relacionamento que eu tinha feito muita coisa errada, então eu estava muito mal. Quando voltei, pedi pra Sofia [de Lima Pacagnella] me levar à igreja, e no dia seguinte a gente foi na reunião de oração. Desde então estou na igreja. Isso foi em outubro, em fevereiro eu fui batizada.

Ah, sempre esqueço de contar. No começo do ano seguinte, fui ao médico. E ele falou que eu já estava de alta, não precisava tomar mais o remédio. Até hoje estou bem, não tive mais crise.

E você continuou participando do movimento?
Continuei participando, depois entrei na diretoria na comunicação [em 2017]. Eu comecei a ajudar em eventos. A gente teve o luau, o CR. Depois entrei na diretoria [local].

E você foi para os Cursos de Férias (CF) e Instituto de Preparação de Líderes (IPL)? Como foi?
Fui pro [CF de tema] “Livres porém servos”, e foi muito legal. A gente estudou Gálatas e muita gente que estava lá tinha muitos anos de conversão, alguns nasceram na igreja. Eles tinham muitas coisas legalistas formadas na cabeça deles, e ali desconstruíram. Mas, apesar de ter só menos de um ano de conversão, também já tinha muitas coisas que tinha construído pra mim, sabe? [Por exemplo,] que eu tinha de fazer uma oração de manhã senão meu dia não ia ser bom, coisas assim. Foi sensacional para me motivar no movimento, para voltarmos com mais gás. Ouvi muitas ideias diferentes, porque no CR a gente não teve tempo de trocar ideias do que estávamos fazendo em cada grupo.

O IPL [2018] foi sensacional também. Eu já estava vivendo outra fase da minha vida. Nos CR’s e no CF estava super empolgada, eu me sentia em casa e queria falar, queria participar. No IPL, estava esfriando aquela primeira empolgação, aquele primeiro amor. Estava me sentindo mal por isso. Foi um momento pra trabalhar isso, conversei com muita gente sobre isso..

Foi muito legal o trabalho em grupo da nossa parte prática. Viver com pessoas totalmente diferentes de mim, aprender a lidar um com o outro, aprendi muita coisa com eles. Também [aprendi] como liderar com amor, sem impor, sem estourar. Aprendi muito também sobre hospitalidade, a família que recebeu a gente foi incrível. Eles estavam passando por vários perrengues, e fiquei muito constrangida por isso. Ainda assim, com todas as dificuldades, receberam muito bem, acolheram muito a gente. Eu voltei querendo receber as pessoas. Antes eu pensava que, se eu não estou bem, é melhor não receber ninguém, meio que “eu não sou obrigada”. Mas lá eu vi que é o que glorifica a Deus. Amar as pessoas, servir, independente de como você esteja.

Você fala disso de estar esfriando, das fases normais da fé, como Deus respondeu através do IPL?
Lembro de uma das conversas que tive com uma das assessoras, ela falou isso, que é uma fase em que você está amadurecendo. É como uma criança. Quando você é criança, seu pai sempre está ali, em cima de você, sempre cuidando. Sempre de olho em você pra que você não faça nada de errado, porque você ainda não sabe lidar com a vida. Tudo é uma festa pra você. Mas conforme você vai amadurecendo, você tem de enfrentar algumas coisas. A responsabilidade passa a ser sua. Seus pais se afastam mais, lhe dão autonomia. Se retiram um pouco, lhe deixam um pouco mais livre. O que eu estou sentindo é essa distância, e é nisso que eu vou exercitar a minha fé. Mesmo não sentindo, não tendo aquela emoção, aquele entusiasmo, aquela alegria, eu ainda vou continuar crendo e obedecendo. Isso que é a fé. Só obedecer e seguir quando estiver sentindo alegria, sentindo emoções, você não estará realmente crendo, a fé é também seguir quando não for bom, quando for doloroso. Essa foi a conversa que mais me ajudou, entre outras coisas e orações que tivemos.

O tema deste Entre Nós é "Alcance". Hoje em dia, como você vê a importância de ter um grupo na universidade buscando alcançar os não cristãos?

Estou vendo aqui nos Estados Unidos que tem muitos grupos e muitas igrejas presentes na universidade, pois o protestantismo é mais forte, mas no Brasil, não. Na nossa faculdade, a gente só tinha a ABU de grupo cristão. Eu acho que é muito, muito importante. Porque dá a oportunidade das pessoas conhecerem. A gente entra na faculdade meio louco, pelo menos eu fui assim. Entrei com 18 anos, tem gente que entra com 17. E a gente entra muito vulnerável. A gente quer ser aceito, e as pessoas que já estão lá dentro se mostram muito confiantes em si mesmas, como se soubessem de tudo, e a gente compra essa ideia. Tudo o que as pessoas falam, fazem, a gente acha que é super legal, é inovador. “Porque na minha casa a minha família não pensa assim, olha o que a gente estava perdendo...” A gente quer fazer parte daquilo, e - na real - tem muita coisa ruim. Acho importante ter alguém que fale de Deus, que fale que não é só isso, não é só “vamos curtir a vida”, tem coisa além disso. Porque no fim das contas, uma hora ou outra, as pessoas que estão vivendo só isso vão sentir um vazio, que a falta de Deus causa. Então é importante que tenha um grupo ali que fale o que está faltando. “Ainda há esperança, é por isso que você está sentindo um vazio, existe um Deus que tem um propósito pra sua vida, que lhe criou, que lhe ama.” E não só pra quem não conhece a Cristo, quanto pra quem conhece também, que entra na faculdade e da mesma forma, infelizmente, é vulnerável e aceita muitas coisas. Quer viver uma vida diferente na faculdade e acaba sendo envolvido por várias coisas que não são legais, não são produtivas. É importante ter alguém que mostre: “Não precisa ser assim, você não precisa viver como a maioria das pessoas vivem. E a gente pode lhe ajudar e caminhar com você nisso. Vamos com a gente tentar caminhar contra essa corrente".

Qual é a importância da ABUB no fortalecimento da fé? Como o grupo no dia a dia lhe ajudou a fortalecer sua fé depois da conversão?
Primeiramente, o que a gente vê, antes de ir pro estudo, ou realmente entender o estudo, é a amizade, a união do grupo. Aquele amor desinteressado mesmo. O que a gente vive hoje em dia, e principalmente na faculdade, são relacionamentos que sempre buscam algo de você. Se você não tiver nada a me oferecer, não vou manter esse relacionamento. E lá eu não vi isso. Ninguém estava mostrando o que fazia, o que era, o que tinha, a gente estava ali, todo mundo junto, como igual no relacionamento, na forma com que um tratava o outro. E isso foi o que já de cara me fez sentir bem, porque me senti acolhida, senti que podia confiar e que eu tinha pessoas com quem eu podia contar. Acho que isso é importante pra todo mundo, tanto pra quem está entrando e ainda não conhece a Cristo quanto pra quem já está. É muito importante ter amizades cristãs pra lhe aconselhar, exortar e consolar de acordo com a Palavra. Fora isso, eu acho que a questão da fidelidade do evangelho, de estar firme no que está escrito, de estudar, é algo novo pra mim. Na ABU a gente busca entender de verdade e, assim, fica mais fácil aplicar na nossa vida, porque a gente realmente entende. Entende o contexto, estuda aquele livro, entende porque foi escrito, pra quem, então você consegue entender melhor o que Deus quis lhe passar naquela mensagem e aplicar mais na sua vida.

E como sua família reagiu a sua conversão?
Reagiram super bem. Inclusive antes da minha conversão eles começaram a ir mais na igreja católica. Antes a gente ia nos dois [católica e centro de meditação hindu], e ia quando dava. Era mais pra bater o ponto do que porque a gente queria ou achava que precisava. Mas um pouco antes da minha conversão, eles fizeram um encontro de casais na católica e começaram a frequentar de verdade. Então acharam muito bom eu ir [na igreja], acho que nem sabiam as diferenças doutrinárias. Depois disso, foi muito produtivo. Como eu estava muito interessada e eles também, a gente começou a buscar juntos. Começou a fazer devocional juntos, começou a discutir sobre a Bíblia. Comecei a ter várias conversas com a minha irmã e ela começou a frequentar o grupo de jovens da igreja católica. Vejo que foi uma influência positiva pra todos nós. Eles comigo – afinal foi minha mãe que me deu o livro no começo – e o contrário também. Hoje temos alguns atritos, infelizmente acontecem algumas discussões [por discordâncias doutrinárias]. Ainda é um motivo de oração.

Por fim, como podemos orar por seu grupo local, a ABU Pirassununga, e por você enquanto está no seu intercâmbio?
Felizmente hoje me passaram que teve uma visitante nova no grupo, e isso trouxe ânimo. Ela está muito animada, querendo buscar igreja. Acredito que o motivo de oração pelo grupo é por mais união e, principalmente, mais comprometimento. A galera precisa de mais edificação na fé. Lembrar realmente porque a gente está fazendo isso, da grandeza de Deus, da importância da nossa dependência dele. Mais do que qualquer divulgação ou evento que podemos fazer, o que importa é o testemunho que cada um é no grupo que frequenta, na sala. Isso acaba influenciando mais. E pelo nosso próximo evento, o luau em setembro.

Por mim, pelo meu desempenho nas aulas, na pesquisa e no trabalho enquanto estou aqui no intercâmbio.

 

"Ao Senhor clamo em alta voz,

e do seu santo monte ele me responde.

Eu me deito e durmo, e torno a acordar,

porque é o Senhor que me sustém.

Não me assustam os milhares que me cercam.

Levanta-te, Senhor!

Salva-me, Deus meu!"

Salmo 3:4-7a

 

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