Entre nós

"A estrutura é uma ferramenta para a obra"

Ex-presidente da ABUB, o diretor industrial Braulio Craveiro Filho viveu diversas situações na estrutura e nas finanças do movimento que lhe deixaram preciosos ensinamentos sobre a boa governança da missão. Formado em Engenharia Mecânica na Universidade de São Paulo em São Carlos (SP), ele participou do movimento desde 1974, como estudante, até meados dos anos 2000, como profissional na diretoria nacional. Hoje, também serve em outras organizações.

Por Tályta Henya Alencar

Queria conversar sobre o aspecto administrativo e da governança na história da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB)...

Se é para falar um pouco da história da ABUB, em 1975 fomos para um Conselho Diretor. Mas era Congresso. Ninguém sabia o que era. Ficou uma discussão tal que em janeiro de 1975 resolveu-se formar uma comissão para formar o estatuto da ABUB, que praticamente é o que é hoje. Foi quando também entraram os dois primeiros diretores adjuntos, eu e o Rubens Osório. [Depois] foi aprovado na assembleia após o Congresso Missionário de 1976. Aí dá-se a estrutura [que ainda há hoje], o estatuto mudou pouco desde então. O primeiro era muito complicado, tinha conflito entre os estamentos, quem decide o quê. Esse estatuto de 1976 foi espetacular no sentido de organizar, serviu para outros países. É aí que se dá a representação democrática a partir do estudante. A ABUB foi um dos primeiros movimentos mundiais [dentre o corpo ao qual pertencemos, a Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES, na sigla em inglês),] a ter estudante na diretoria, na IFES foi só em 2011. A estrutura da ABUB, então, foi feita na década de 1970 e tem de ser aperfeiçoada agora, tem de mudar porque a lei está mudando. Repensada por gente da área.

Como foi levantada essa pauta de representação dos estudantes na Diretoria Nacional?

Era o movimento que queríamos. Democracia no movimento. Tem um ponto importante aí. Até 1975 a ABUB recebia dinheiro da IFES para ajudar o sustento[, era 30% do orçamento]. Nessa reunião, junto com os assessores, decidimos que não íamos receber nada mais. Foi como uma declaração de independência. Com isso: "Não queremos mais os gringos.*[Veja nota de rodapé.] E queremos dois diretores adjuntos, tem de mudar a representação". O Congresso Missionário foi [um evento que buscava] liberdade, sendo pressionado pelo governo de um lado e a igreja conservadora do outro. A ABUB no meio. [A luta por democracia] é o resultado de dois ou três anos querendo essa abertura também dentro do nosso movimento, e [o desejo de] não ser comandado por fora. Muitas dessas reuniões quem fazia era o Dr. Ross Douglas, [então vice-presidente].

Por causa dessa mudança política na situação universitária e tudo… por exemplo, 1975 foi o primeiro ano depois de 1968 que teve greve na Universidade de São Paulo. Queria-se mais liberdade. Nessa ânsia de mudar, veio nosso estatuto querendo ser democrático, [e era] uma estrutura bem melhor, diferente de algumas estruturas de igreja. ABUB nesse ponto sempre foi vanguarda.

Braulio e sua esposa, Cherith, conversando com estudantes de Minas Gerais no Encontro de 60 anos

Essa liberdade traz os debates.

Divergência não é o problema, mas a maneira como você diverge pode ser. Quando você fala: "Não, você está errado". Essa atitude, que nós tivemos muito em alguns momentos na ABUB, é errada. Mas também a ABUB era o único lugar de liberdade de fala. Só na ABUB podemos sentar juntos e termos posições divergentes, vamos ser amigos e não vamos brigar. Por quê? Porque a ABUB permitiu esse espaço de liberdade. Alguns souberam usar, outros não. Tinha cara que falava cada besteira que vocês não imaginam… teve proposta de nunca mais pagar imposto! [Com a diretoria] conseguiu-se formar um corpo que sabe de governança, o que precisa fazer, etc. Gente que tinha uma vida profissional e sabe do que pode e o que não pode. Um corpo preocupado em manter uma estrutura, as coisas rodando.

Como vocês comunicavam a importância da governança e boa administração para os estudantes?

Primeiro, em todas reuniões é preciso repetir isso, porque poucos voltam. Segundo, orientávamos os assessores a também falarem isso com os estudantes. Era feito um trabalho com os obreiros para que se preocupassem em transmitir [os princípios da governança]. Por exemplo, num congresso teve uma eleição e eu tive de dar o voto de minerva. Fizemos a contagem duas vezes e empatou em ambas. Mas tinha uma estrutura, não interessa, deu empate e OK, tem de tomar uma decisão. Foi tomada e todo mundo aceitou, mesmo os que perderam. Isso mostra governança, um sistema que se respeita, que tem regras. Para o estudante, isso não é fácil, porque ele não está acostumado. Mas a ABUB se manteve durante todos esses anos em função desse corpo que mostra a importância da estrutura. Não é porque eu gosto de estrutura, detesto. Mas isso é uma ferramenta para fazermos a obra missionária. Não devemos viver em função dessa estrutura! Ela é única e exclusivamente com um objetivo: fazer a obra. Se ela for viver em torno de si mesma, está frita, não pode acontecer isso. Não podemos perder o foco.

Como era e como vocês encaravam os desafios financeiros? Passavam apertos?

Quando entrei na diretoria, os assessores recebiam salário com seis meses de atraso. Era um voluntarismo muito forte. Os obreiros que propuseram romper com o financiamento da IFES e foram eles que pagaram o preço. Não foi estudante e nem o movimento que pagou. Foi uma batalha muito grande para que o salário fosse pago em dia. Passamos amargura em ver o que os obreiros passavam. Eu digo: nunca vamos ter dinheiro para fazer tudo aquilo que precisamos. Uma coisa que precisamos reconhecer é que nunca vamos conseguir todo o capital necessário para a obra que temos, sempre vai faltar. Alguns momentos mais, outros menos. Se cada estudante que foi membro de Conselho Diretor der 10 reais por mês, o orçamento da ABUB multiplicaria. Algumas pessoas aprenderam que somos mordomos do que Deus nos dá. Mas quando você é bem formado e volta para a igreja, ela logo te coloca numa posição boa e muitas vezes suga com outros projetos e responsabilidades.

Com tanto aperto, na hora de comprar imóveis, como o Centro de Treinamento Koinonia (CTK) e o Escritório Nacional, como vocês tomavam a decisão?

Vou te contar a história do CTK. Eu era muito amigo do Bill Asbury, secretário de treinamento na época. Ele bolou um centro, porque toda vez que íamos fazer Instituto de Preparação de Líderes não tínhamos um local para colocar o pessoal. Faltava espaço, saía caro. Ele pensou: "Eu vou conseguir fazer isso aí". Então bolou e colocou dentro do relatório dele ao Conselho Diretor. Apresentou as atividades que tinha feito e, no meio, pediu a aprovação da compra de uma casa, e outra coisa, e tal. Aí ao fim: "Tá aprovado tudo?" Aprovado. "Irmãos, então coloca na ata que está aprovado todo o meu relatório." Em que estava, inclusive, a compra de um centro de treinamento! Só que ninguém se deu conta. Nem o secretário geral! Depois da reunião o Dr. Douglas entra no banheiro atrás de mim: "Braulio, eu entendi que nós acabamos de aprovar a compra de uma casa?" Falei: "Isso mesmo, Dr. Douglas". Aí o secretário geral disse que não. "Tá lá no relatório, cara!" Dr. Douglas: "Billzão é um malandro!" (risos). Mas a ABUB não colocou nada, ele que arrecadou tudo! Com relação ao escritório da ABUB, era na rua Embaú e estava apertado. Bill McConnell, [secretário de literatura da época,] dentro de uma política da IFES de que cada movimento nacional precisava de seu escritório próprio, especialmente em países de alta inflação, levantou a ideia e John Griffin trabalhou junto. Houve doações de fora, levantou-se um fundo, uma campanha. Quando tiveram as doações, foram atrás da casa [que atualmente está em reforma].

Como você vê a importância da diretoria nacional trabalhar com a secretaria executiva?

Quando formamos a estrutura definiu-se qual diretor acompanha cada secretário. Quando eu era vice-presidente, o Bill McConnell era secretário de literatura. Ele era espetacular. Mas [quando] ia apresentar o relatório no Conselho Diretor, os estudantes falavam muito mal. Um dia pedi para apresentar no lugar dele, deu tudo numa boa. Ele não se conformava! Era uma reação porque viam ele como americano, e não como irmão em Cristo. Depois foi John Griffin. Toda segunda-feira, entre 21h e 21h05 da noite, ele ligava, conversávamos e ele informava relatório de venda. Quando fui presidente, Ziel era secretário geral. Tivemos uma situação que ele me ligava sempre, conversávamos, porque era minha função supervisioná-lo. Então, se tinha um problema, eu queria saber como ele estava resolvendo, se precisava de orientação. Não é que eu ia dar a resposta, mas às vezes só o apoio ajuda a resolver. E comunicando a mim, estava comunicando a diretoria, porque minha maneira de fazer sempre foi transparência total. Por isso um assessor tinha segurança de expor um novo projeto na diretoria, porque na conversa com o diretor já tinha compartilhado as coisas, sido orientado. A diretoria não é para exercer autoridade, mas para trabalhar junto e criar ferramentas para os obreiros poderem trabalhar.

Qual é importância da prestação de contas para o movimento?

Eu sou a favor da transparência. Eu acho que a prestação de contas é de suma importância por, um, fidelidade ao doador; dois, transparência com todos aqueles que precisam ter noção do que temos e o que não temos; e, três, para mostrar o que o movimento é. Eu vejo pelos números que a maioria [dos gastos] são pessoais. Isso é importante, não é uma organização que vive [gastando com] estrutura, ela sustenta pessoas. Esses três aspectos são importantes.

O que você voltaria atrás para não fazer de novo?

Como fazíamos a seleção de obreiros e como escolhíamos para as posições principais. Apanhamos muito e fizemos algumas escolhas muito erradas. Se voltasse atrás faria diferente, com passos, processos, etc. Teve muito obreiro escolhido [só] porque se dispôs, muitos deram certo e muitos não. E outra coisa [que faria diferente] é finanças. Acho que nunca conseguimos montar uma estrutura de apoio financeiro consciente para o estudante. O estudante doador é o profissional doador. Se não doa como estudante, não vai doar enquanto profissional. Um ensinamento que temos de insistir é mordomia, o [ex-presidente] José Miranda Filho trabalhou muito isso. Dois pontos que precisam ensinar aos estudantes: mordomia e administração de finanças. Muita gente vem sem nenhuma base, e precisa em algum momento aprender que é mordomo [do que na verdade é de Deus] e como administrar o dinheiro que Deus lhe deu ou pode lhe dar para cuidar.

Reflita: Como assim mordomia e administração? Leia Mateus 25:14-30 para estudar sobre isso.

Estude: Braulio também disse: "As pessoas têm medo de falar de dinheiro, mas se fala muito de dinheiro na Bíblia!". Ficou curioso? Ele sugere ler "Histórias de Dinheiro da Bíblia", de Dietrich Bauer, que foi da IFES.

*Nota de rodapé: Braulio conta que o espírito da época da ditadura militar era de rejeição de tudo o que era estrangeiro. Dessa forma, a ABUB não quis depender dos recursos estrangeiros. Por outro lado, alguns anos depois o grupo decidiu que, apesar de canadense, Ross Douglas era um líder exemplar e presente e poderia, portanto, assumir a presidência do movimento, como fez em 1978.

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