O desafio da Missão Integral e da responsabilidade política
A compreensão e vivência de uma fé distante do contexto social distinguiu, no Brasil, prática evangélica de questões políticas. Em entrevista ao Respondendo ao Chamado (RAC), o teólogo e ex-obreiro da ABUB Valdir Steuernagel defende que, no Brasil, a própria separação entre fé e vida pública é fruto da conjuntura política das décadas de 1960 e 1970. A Missão Integral, que surge neste período, difundiu no meio evangélico a necessidade de compreender as implicações sociais da vida cristã. Trinta anos depois, não é difícil encontrar igrejas e cristãos envolvidos em projetos sociais que atuam com crianças, adolescentes, famílias em situação de risco e vítimas da desigualdade social. E ainda que a atuação seja tímida em relação à demanda, parece haver consenso quanto à necessidade dos cristãos agirem nesta área. Já a compreensão desta mesma necessidade, no campo da política, costuma ser mais polêmica no meio evangélico.
Nesta entrevista, Valdir fala sobre a responsabilidade cristã na política cotidiana, que é o exercício da cidadania e da vida pública. O teólogo ainda aponta temas que, sob a perspectiva da Missão Integral, devem pautar a ação evangélica no campo político. Valdir é Teólogo Sênior da World Vision International (Visão Mundial), função responsável por zelar pela identidade cristã da organização e atuar como embaixador global junto a igrejas e outras entidades. Sua trajetória é marcada pela formação teológica – Valdir é doutor em Missiologia pela Escola Luterana de Teologia de Chicago – e pela atuação na área social. Também é colunista da revista Ultimato e membro das diretorias do Movimento Lausanne para a Evangelização Mundial e da Aliança Evangélica Mundial.
1 - Até a década de 1960, discutia-se a “responsabilidade social da igreja”. Essa foi também a ênfase da Teologia da Missão Integral, que se desenvolveu nas décadas seguintes?
É difícil afirmar que “até a década de 1960, discutia-se a ‘responsabilidade social da igreja’”, pois o protestantismo/evangelicalismo, do qual creio que você está falando, tem uma dificuldade intestina em caminhar unido e se desagrega com grande facilidade. Mas é verdade que o protestantismo histórico brasileiro expressava forte compromisso em torno à responsabilidade social da igreja antes da ditadura que se iniciou em 1964. A partir daí a ênfase passou a estar numa espiritualidade desencarnada e descontextualizada que se preocupava muito mais com a “salvação das almas” do que com o compromisso de fé público e ético dos cristãos.
Internamente, a ditadura militar brasileira cuidava para que as igrejas fossem as mais apáticas e passivas possível em termos de engajamento político-social. Externamente, a empresa missionária norte-americana enviava à América Latina muitos missionários que eram produto de uma formação bíblico-teológica fundamentalista e adeptos de uma ideologia que via em qualquer preocupação com a justiça, ou em qualquer participação política e social crítica, expressões de um comunismo ateu que tinha de ser combatido a ferro e fogo.
A teologia da Missão Integral da igreja nasceu de uma dupla preocupação. Por um lado ela queria se apropriar e afirmar os postulados básicos da Reforma Protestante, que se expressava numa identidade evangélica. E, por outro, via que o evangelho precisava seguir o modelo da encarnação de Jesus e tinha, portanto, uma dimensão não apenas cultural mas também social, política e econômica.
2. Se hoje temos convicção da nossa responsabilidade social, enquanto cristãos, como é possível desenvolver esta “vocação” em termos de política?
A vivência da vocação é, na maioria das vezes, pública; e, como pública, ela é também política. A política, entendida como o exercício da cidadania, é necessária e inevitável. A enfermeira que cuida bem dos pacientes do hospital e zela para que eles tenham um cuidado humano e profissional está fazendo política – o que é o caso com tantas outras profissões. Neste sentido, a Missão Integral afirma o sacerdócio geral de todos os santos, que é um dos postulados básicos da Reforma.
Assim, no exercício da nossa vocação, somos agentes políticos e nessa vivência política abraçamos, vivemos e anunciamos a política do Reino de Deus, que é marcada pelo amor, pela ética, pelo serviço e pela alegria.
Se pensamos na política partidária, no entanto, precisamos dizer que ela é uma expressão legítima do exercício da vocação, ainda que seja apenas uma expressão, aliás limitada, da vocação política. Mas parece que você quer aprofundar isso um pouco mais.
3. Como deve ser o envolvimento dos cristãos com as diferentes esferas da política – partidária, conselhos de políticas públicas, judiciário, etc?
Como a sua própria pergunta indica, a política partidária é uma expressão da própria política pública. O Brasil valoriza e se pauta pela existência dos poderes legislativo, executivo e judiciário, e cada um deles tem o seu processo de participação ao qual os cristãos se submetem e do qual participam, sempre pautados pelos princípios da justiça, da verdade, do serviço e do amor.
O que parece vivermos nos dias de hoje é um processo de descrédito nesses poderes e especialmente no poder político, que tem se mostrado incapaz e indesejoso de se reinventar, à luz dos desafios e oportunidades do nosso tempo e desta geração, e acaba se constituindo num dos órgãos de maior descrédito na nossa sociedade.
Assim, se você me perguntar se os cristãos devem participar na política partidária eu diria que sim, desde que não o façam sozinhos e tenham um grupo de prestação de contas, e desde que se alinhem aos poucos grupos que ainda expressam um compromisso com uma vivência política que tenha a marca da boa cidadania, da prática da justiça e de uma legítima preocupação com os mais pobres e vulneráveis da nossa sociedade.
4. Existem temas ou bandeiras obrigatórias para um cristão que, comprometido com a teologia da Missão Integral, leva sua fé ao espaço público?
Durante esta entrevista eu já citei várias vezes a palavra “justiça”. Este me parece um tema inegociável para o cristão. Essa justiça questiona e substitui as inúmeras expressões de injustiça em meio às quais vivemos.
Outro tema fundamental é o compromisso com o pobre e o vulnerável em nossa sociedade. E estes são muitos! O evangelho de Jesus Cristo tem um viés a favor do pequeno e do pobre, e é esse evangelho que devemos seguir.
Hoje a preocupação com o meio ambiente, as mudanças climáticas, a preservação da natureza, a proteção dos mananciais e dos mares, são todos temas inegociáveis na composição de uma agenda vocacional para os cristãos na atualidade.
Há certamente outras questões fundamentais, entre as quais a bioética, que precisam ser priorizadas em nossa agenda e vocação hoje. Mas creio que os temas mencionados já apontam para um jeito de olhar para o mundo sob a perspectiva da criação, da compaixão e da redenção.
Creio ser importante mencionar, no entanto, que estes temas não esgotam o cardápio da vivência missionária da igreja. Na Visão Mundial nós dizemos que o nosso testemunho cristão se dá pela vida, através das nossas ações, palavras e através dos sinais milagrosos com os quais Deus nos agracia. Essas diferentes expressões testemunhais é que formam o conjunto missionário para o qual Deus vocacionou a sua igreja.
6. Quais os caminhos da Missão Integral hoje?
Os caminhos da Missão Integral hoje devem ser os mais simples possíveis. Afinal, a vivência missionária nada mais é que o seguimento individual e coletivo a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.
(Marcus Vinícius Matos, secretário executivo da Rede Fale.
Entrevista originalmente concedida ao informativo impresso Respondendo ao Chamado, do ministério de diaconia da ABUB)
Apresentação
Entre Nós é o informativo semestral da ABUB que traz reflexões, notícias e entrevistas sobre a missão estudantil em todo o Brasil.


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