Blog da ABUB

Pequenos e silenciosos começos

Por Pablo Gomes*

É injusto quando não somos reconhecidos como atores de uma boa ação. Mas isso lhe tiraria o ânimo de realizá-la? Abeuenses no Rio de Janeiro (RJ) responderam, certa vez, com um “não” a essa pergunta.

Foi em 2016. O grupo da Aliança Bíblica Universitária (ABU) no Rio de Janeiro decidiu que precisava lidar, de alguma forma, com a temática da depressão e do suicídio. Casos de suicídio em universidades, envolvendo universitários ou não, haviam crescido, principalmente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo relatório publicado em 2014 pela Organização Mundial de Saúde, o suicídio havia se tornado a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade. Considerando a mesma faixa etária, no Brasil foram registrados cerca de sete óbitos por suicídio a cada 100 mil habitantes no período de 2011 a 2015, dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de setembro de 2017. No entanto, de 2011 a 2016, foram notificados cerca de 23 mil casos de tentativa de suicídio nessa mesma faixa etária.

“A gente via na realidade, entre os nossos colegas, que a questão da depressão era importante e a do suicídio também. E sabíamos também que temos uma mensagem que poderia ajudar as pessoas”, conta Ellen Aragão, psicóloga e assessora auxiliar (voluntária) do grupo. “Elaboramos [então] uma proposta de ação unificada entre as Universidades para o mês de setembro. (...) A ideia era valorizar a vida por meio de rodas de conversa e momentos de acolhimento para os estudantes. A ideia foi analisada em cada núcleo e levada às faculdades onde estavam inseridos.”

Mas ao levarem a proposta para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a fim de conseguirem um espaço, o núcleo se deparou com um impasse: no setor responsável, uma das funcionárias informou que não poderia liberar espaço para uma atividade organizada por um grupo cristão. Sua explicação? A universidade era laica e não poderia promover um grupo religioso. No entanto, ela propôs a alternativa de realizar o evento sem divulgar o nome da ABUB. Mesmo assim, informou, era possível que o evento não pudesse ser realizado naquele ano.

Há um problema na compreensão desse conceito complexo que é a laicidade do estado? Muito provavelmente. Diante desse impasse, os abeuenses chegaram a pensar na realização de um evento que discutisse sobre laicidade, mas entenderam que aquele não era o momento.

Assim, após conversarem sobre a situação, inclusive comigo, enquanto assessor da ABUB na região, o grupo teve a certeza de que o evento deveria ser realizado sem divulgar o próprio nome. “A gente entendia que o mais importante era que os estudantes fossem alcançados e tivessem as suas necessidades atendidas, e não que o nome da ABUB fosse divulgado”, relembra Ellen. Mas, como a funcionária havia alertado, o evento realmente não pôde ser realizado naquele ano.

No ano seguinte, outra funcionária da UFRJ, ao ver um grupo reunido com uma Bíblia, parou e perguntou o que eles estavam fazendo. Na conversa, explicaram sobre o trabalho da ABUB. Ela ficou surpresa com a existência de tal grupo e se dispôs a ajudar no que fosse necessário. Uma estudante do grupo aproveitou a oportunidade e conversou com essa funcionária sobre a proposta para o Setembro Amarelo. A surpresa, agora, foi do grupo: essa funcionária estava fazendo um trabalho de acolhimento à saúde mental de professores e alunos e firmou o compromisso de incluir a proposta dos abeuenses em seu trabalho.

Nas palavras da Ellen, o grupo percebeu que “no tempo de Deus, ele havia criado a estrutura e as condições. Ele enviou as pessoas e a coisa aconteceu. No dia do evento, essa funcionária falou sobre o grupo da ABUB no Rio de Janeiro. Acabou que, no final das contas, a ABUB foi citada e o mais importante é que foi um evento muito maior do que o que a gente imaginava”.

Assim como há sementes que demoram um pouco mais para crescer, alguns bons projetos podem começar em épocas e/ou de maneiras diferentes daquelas que gostaríamos. Seja como for, as Escrituras nos animam a perseverar, quer reconheçam nosso serviço ou não (Mateus 6:3-4), quer tenhamos começos “grandiosos” ou pequenos (Zacarias 4:10). “O Reino de Deus”, revela nosso Senhor, “é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra. Noite e dia, quer ele durma quer se levante, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como” (Marcos 4:26,27 - NVI).

De lá para cá, o grupo da ABU Rio de Janeiro já colaborou em duas edições do Setembro Amarelo, evento organizado pelo Centro de Ciências da Saúde da UFRJ (em 2017 e 2018). Nas duas vezes, alguns participantes agradeceram aos abeuenses por estarem envolvidos com a realização do evento e pela atitude acolhedora para com as pessoas que lidam com a depressão ou com o suicídio. A terceira edição já está marcada.

Que pequenas e, muitas vezes, silenciosas ações, você poderia fazer para lidar com esse desafio? John Stott, em seu livro Ouça o Espírito, ouça o mundo (ABU Editora), desenvolve o desafio a ser vivenciado pelos cristãos de ouvir duas vezes: é necessário ouvir o que o Espírito diz às igrejas e ouvir as dúvidas, angústias e desafios que o mundo ao nosso redor traz. Foi isso que o grupo fez. E creio que é nesse ponto que podemos disparar “pequenos começos” para ajudarmos quem pensa em suicídio: ouvindo com atenção e compaixão a quem sofre e conhecendo melhor, por meio das Escrituras, como o próprio Deus tratou e aconselhou pessoas que passavam por sofrimento intenso. Essa coletânia de textos no site da Ultimato traz reflexões e orientações adicionais para você, seu grupo e/ou sua igreja semearem esses pequenos e silenciosos começos. Que Deus dê o crescimento a toda boa semente!

*Formado em nutrição, Pablo é assessor da região Leste e mora na Grande Vitória com sua esposa e dois filhos.

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