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Racismo: o que a Trindade tem a nos dizer?

Por Timóteo A. A. Oliveira*

Os acontecimentos recentes no cenário internacional têm sido surreais: protesto da extrema-direita nos Estados Unidos contou com supremacistas brancos, neonazistas e a Ku Klux Klan. O tema racial se fortalece, e para alguns não negros ocorre o espanto: “Existe racismo, nossa!”. Digo isso, pois, por mais que a marcha nazista seja de fato uma coisa muito bizarra, não é uma ação isolada, pois tanto nos Estados Unidos quanto no próprio Brasil o racismo é estrutural e se manifesta em todas as instituições sociais.

O Brasil, o país com a maior população negra fora do continente africano e o segundo país mais negro do mundo, perdendo apenas para a Nigéria (1), é um dos primeiros na morte desta população. É interessante notar que a nação brasileira foi a que mais traficou africanos (2), arrancando-os de seu continente para uma subvida.

Este país foi o último a “abolir” a escravidão nas Américas, e mesmo assim por imposição externa da Inglaterra que obrigou os países aliados essa política. (3) Este país, o Brasil, de 500 e poucos anos de história, 388 são de escravidão e menos de 200 de “liberdade”. Este país implantou políticas de imigração de povos europeus para embranquecê-lo, pois cria-se que era necessário apagar a maioria negra da nação. As nações africanas e caribenhas foram impedidas de vir pois, acreditava-se, assim como os nazistas, que negros são inferiores em todos os sentidos e deveriam ser exterminados e reduzidos.  A negação de empregos à população negra foi massiva, e por isso foram jogados à margem da sociedade, formando as favelas de hoje.

Em suma, a nação brasileira é racista, pois foi estruturada sobre este ideal de superioridade de um grupo étnico racial, o branco europeu, sobre outros povos, como indígenas e africanos. Isso transparece na presença negra como maioria da população carcerária, maioria das camadas mais pobres, estando majoritariamente na rua, nas favelas. A população negra é a que mais morre no país, de 2005 a 2015 a mortalidade dos jovens negros subiu 18,2%, enquanto entre os não negros reduziu 12,2%. Entre as mulheres negras no mesmo período ocorreu um aumento de 22%, ao mesmo tempo que nas não negras reduziu 7,4% (4) .

As perguntas que nós cristãos devemos fazer são “o que a nossa fé tem a ver com isto? Como ela se encaixa nesse debate?” Afinal, não podemos esquecer que a Ku Klux Klan era e é formada por cristãos protestantes, e em nosso país de início católico a escravidão não era problema, sendo a postura da maioria da igreja protestante omissa  quando aqui chegou.

Seria o nosso Deus racista? NÃO. Absolutamente não. A Bíblia não dá margem para tal interpretação. Racistas cristãos não conhecem as escrituras, não compreendem passagens como a teofania (termo utilizado para descrever uma aparição visível de Deus) que aconteceu com Hagar, mulher africana (Gênesis 21:9, 17), ou o fato de que o primeiro convertido gentio ser etíope (Atos 8:26-40), ou ainda os africanos Simeão, chamado Níger (negro), e Lúcio Cireneu (ou “de Cirene”) envolvidos no que se constituiu o centro missionário em direção aos gentios do primeiro século, desta forma essas ações estão no berço do cristianismo, expressando nas Escrituras o desejo de Deus para a tarefa missionária (Atos 13:1). Racista cristão é um herege.

Para além das referências aos povos negros nos relatos bíblicos, é preciso entender que o racismo se coloca totalmente contra a própria natureza de Deus e é inimigo do projeto divino para a humanidade. Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, como afirma Gênesis 1:26. E quem é Deus para nós? Ele é a Trindade, é a comunidade perfeita. E como ele é unido e diversificado em três pessoas, assim ele deseja que vivamos. O desejo de Deus é que sejamos uma comunidade perfeita, que opere pelos valores que regem a Trindade.

Com a queda, nossas relações sociais foram afetadas e comprometeu-se nossa relação em comunidade, vide a relação entre os grupos brancos e negros. Mas Jesus, em João 17:20 e 21, em sua oração de envio, reitera isso ao clamar “minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (NVI). Ele, o Senhor, deseja restaurar os valores da Trindade no coração dos homens, criando uma comunidade que imita os valores divinos. Essa é a igreja.

E quais seriam esses valores que devem orientar nossa vida e comunidade? Atanásio de Alexandria, um diácono africano do século IV, escreveu o texto que definiu a Trindade da forma que todas as tradições cristãs hoje compreendem, o “Credo Atanasiano”. O escrito tem autoridade histórica e é consenso entre os grupos cristãos. Nele é possível perceber os valores da unidade, diferença e igualdade como norteadores da relação Pai - Filho - Espírito Santo.

Deus é um, todos partilhando os mesmos atributos, todos pontos em comum que os confere serem um Deus. Do mesmo modo, as várias comunidades humanas (ameríndios, africanos, europeus, asiáticos) partilham o mesmo ponto: a humanidade.

Deus é diversidade. São três pessoas. O Pai, o Filho e o Espírito Santo. A unidade não afeta a diferença dos três, assim o  Filho é diferente do Pai, que difere do Espírito, que difere do Filho e por aí vai. Do mesmo modo, as comunidades humanas devem garantir o direito à diferença de modo que a unidade não seja afetada, ao contrário, deve coexistir a unidade e diversidade em uma mesma comunidade, a comunidade humana.

Deus é igualdade. O Pai não é superior ao Filho, que não é superior ao Espírito, que não é superior ao Filho, nem ao Pai e por aí vai outra vez. Do mesmo modo não deve existir o sentimento de superioridade de uma comunidade étnica sobre outra. O tambor não é inferior ao piano, é apenas diferente. Esses valores colocam o racismo em uma só categoria: pecado. Ele é o plano diabólico que deseja destruir o plano universal de Deus de reconciliar com ele todas as coisas (2 Coríntios 5:18, 19; Colossenses 1:20), afetando a relação étnico-racial.

O racismo é pecado porque fere a unidade de Deus refletida na unidade da humanidade. O racista desumaniza o outro que é diferente dele. É o que denunciou o escritor francês de Martinica (Caribe) Frantz Fanon no livro Os condenados da terra. De acordo com ele, a Europa, ao olhar a África, arranca-lhe a humanidade e escraviza seus filhos. E isso é percebido nas falas desumanizadoras lançadas a Indígenas e quilombolas em nosso país.

O racismo é pecado porque não concebe a diferença entre as diversas comunidades como manifestação da graça de Deus, um reflexo da diversidade em Deus. Para o racista, o que não for europeu ou presente na cultura erudita de influência também europeia (sendo, assim, considerada “refinada”) não tem valor. Para eles, músicas periféricas, instrumentos de origem africana, espiritualidades outras não têm valor. Para eles, essas coisas devem ser destruídas e nunca respeitadas.

O racismo é pecado  porque desconsidera a igualdade de Deus refletida nas diversas comunidades humanas. O racista relaciona diferença com moralidade. Se é diferente, logo é inferior. Para ele um tambor é ontologicamente do demônio, ritmos africanos como samba, funk, rap são dados à violência e sensualidade, sendo impossível a reconciliação com essas linguagens humanas.

Diante disso, concluímos o caráter herético do racismo e sua afronta aos soberanos e eternos propósitos de Deus. Deve ser por nós combatido a todo custo. Devemos combatê-lo como parte de nossa missão de reconciliar com o mundo com Cristo (2 Coríntios 5:18)

*Timóteo é o atual Segundo Coordenador local da ABU Vitória (ES). Ele estuda Ciências Sociais na UFES. Também é facilitador do projeto ABUB Contra o Racismo.

Notas

  1. Fonte: http://www.afropress.com/post.asp?id=15404
  2. Confira: http://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2007/04/070405_escravos_database_pu.shtml
  3. Fonte: https://www.geledes.org.br/brasil-foi-o-ultimo-pais-a-abolir-a-escravidao-na-america/
  4. Fonte: Atlas da Violência 2017 IPEA, no link http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=30253

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