Blog da ABUB

Ser mulher negra na universidade

Por ocasião do dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, as facilitadoras do projeto ABUB Contra o Racismo estão publicando no site e na nossa página no Facebook (visite-nos lá!) relatos, dados e reflexões sobre a realidade da mulher negra e indígena no Brasil, na universidade, na igreja e na ABUB.

Por Vanessa Santos*

Estar na universidade ainda é privilégio e, para muitos, chegar lá é vencer vários obstáculos. Para as mulheres negras esses obstáculos são permeados por questões socioeconômicas, de gênero, raça, etc. Estas mulheres não chegam até a universidade sozinhas pois com elas vêm suas famílias, nas quais muitas delas, e arrisco até dizer que a maioria, são as primeiras a chegar nessa etapa de ensino. Situação com a qual me identifico e, não somente eu, outras irmãs compartilham, de forma breve, suas experiências:

"Para mim, aparentemente, estar na universidade não era nada tão extraordinário, apesar de estudar em uma turma que, se muito, éramos cinco negros dentre 45. Mas eu mudei minha visão depois de conhecer a história da minha família paterna, de origem quilombola (quilombo de Carapotós, em Caruaru), que por gerações serviu a uma família rica branca. Com o falecimento de minha tia-avó, a última doméstica dessa família, me dei conta que o fato de pertencer a uma família de origem humilde e estar na minha segunda graduação é tipo uma alforria das décadas passadas de servidão por gerações na minha família. Valorizo bem mais hoje o ensino superior porque sei que somos (meus primos e eu) escritores de uma história nova para a família, que teve a vida consumida ao pé do fogão."
Adna Rodrigues, formada em publicidade pela UFPE e estudante de design pelo IFPE, faz parte da ABU Recife (PE)

"Ser mulher negra na Faculdade de Medicina é olhar para o lado e se dar conta que a grande maioria daqueles que tem a mesma cor da pele que a minha ocupam cargos menos prestigiados dentro da universidade. E é saber que isso é uma herança histórica de um país escravocrata, história que reflete em nossa sociedade até os dias de hoje, algo que não pode ser considerado normal. É, ao mesmo tempo, olhar para si e para os outros colegas negros e perceber que essa realidade precisa e está sendo mudada!" 
Leandra Alves, estudante de medicina na UFJF, faz parte da ABU Juiz de Fora (MG)

"Ser negra em uma graduação considerada "tradicional e de gente rica" é um contínuo ato de resistência. É perceber a cada dia como o racismo estrutural permeia a cabeça das pessoas e como ainda precisamos enxergar o outro, enxergar o pobre, o negro, o indígena... Ser negra na universidade é perceber também que tive privilégios em relação a outros e devo usar da oportunidade para que outros também cheguem no ponto em que estou e possam chegar a lugares mais altos que eu."
Nayara Melo, estudante de odontologia na UFPE, faz parte da ABU Recife (PE)

Que sejamos agentes de reconciliação, de transformação, as protagonistas de uma nova história. Que estejamos sensíveis a nossa realidade, caminhando juntas, para manifestação do Reino de Deus na vida daquelas que já se encontram nesse ambiente e para aquelas que ainda virão.

*Vanessa Santos é estudante de história na UFBA, faz parte da ABU Salvador (BA), e é facilitadora do projeto ABUB Contra o Racismo na região Nordeste

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