Blog da ABUB

Um relato sobre negritude e empoderamento no Espírito

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.” - Mateus 5:6

Por Luciana Petersen*

Nos últimos tempos tem sido ampliado o debate sobre negritude e racismo no Brasil e podemos perceber as diversas marcas do racismo estrutural em nosso país. Graças a Deus, os estudantes da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) têm entendido a importância de abraçar esse tema para um maior diálogo da nossa fé com a realidade social e racial brasileira.

Qual é a cor da ABUB hoje? Com qual movimento estudantil os negros e negras das nossas universidades têm se identificado? Mais do que um momento de estudo bíblico, o Instituto de Preparação de Líderes (IPL) dos fracos foi para mim um momento de pensar a abrangência da missão para qual fomos chamados. Escrevo algumas das impressões pessoais a respeito desses 20 dias que trouxeram reflexões e mudanças que ainda ecoam em mim.

No IPL 2017 - “Onde os fortes não têm vez” tivemos dois momentos (oficiais) voltados para negritude: a oficina "Cristianismo e identidade negra" por Leandra Barros e a palestra "Poder na sociedade e as questões raciais" por Meyrieli Carvalho. Percebi o quanto esses momentos foram importantes para nós, negros e negras que estávamos lá (ainda em minoria, infelizmente). Ao sermos convidados a olhar toda a bíblia na perspectiva da negritude, vemos o Jesus que se parece conosco e está perto de nós. Conhecemos personagens negros/as de uma bíblia que antes de ser europeia, é afro-asiática. Nos aproximamos do Jesus que leva na cruz todas as dores que sofremos, ontem e hoje, na nossa carne. Choramos e nos abraçamos por reconhecer nossa identidade em Cristo e pelo privilégio de poder adorar ao Deus que nos criou negros e negras e viu que isso era muito bom. Fico feliz porque meus irmãos e irmãs puderam afirmar sua negritude no espaço de formação do IPL, se sentindo chamados a lutar e a resistir.

Ao mesmo tempo, percebi o desconforto dos amigos brancos. Sermos confrontados com o pecado do racismo é difícil, principalmente ao nos depararmos com o racismo estrutural e teológico tão presentes em nosso meio. Alguns se sentiram incomodados por não considerar necessário esse debate sobre racismo dentro dos espaços da ABUB, outros entenderam que a origem do incômodo ia além, relatando que se sentiram mal ao perceber quão privilegiados ainda são e reconhecendo o racismo que muitas vezes reproduzem. Abraçamos o convite a descolonizar nossas mentes de forma coletiva, imitando o modelo de Cristo e não nos conformando com esse mundo.

Tínhamos conosco no IPL dois amigos da ABEMO (Aliança Bíblica Estudantil de Moçambique), que trouxeram perspectivas interessantes sobre a igreja africana e os missionários (inclusive brasileiros) que chegam até eles. Muitos desses missionários levam uma visão colonialista sem se preocupar com o fortalecimento das igrejas plantadas e formação de líderes, voltando ao país de origem e abandonando igrejas doentes. Sou muito grata por esses momentos e por ver a ABUB inserindo essas pautas nos encontros nacionais de formação (e em todas as demais instâncias, amém).

Minha parte prática do IPL foi em uma Igreja Presbiteriana localizada dentro do Quilombo do Retiro, em Santa Leopoldina - ES. Uma comunidade composta por 275 descendentes de Benvindo Pereira dos Anjos, o ex-escravizado fundador do quilombo. Fiquei muito feliz por ter contato com um povo que preserva suas origens e ancestralidade africana, e mais feliz ainda por ter essa oportunidade dentro da ABUB. Ao mesmo tempo, uma das minhas maiores crises foi entrar nessa situação de missão transcultural e ter que lidar com a relação evangelização/colonização que tanto evitava. Seguimos vendo até hoje homens brancos manipulando a Bíblia como forma de legitimar opressões e impondo regras às igrejas que apenas repetem o padrão europeu (e não necessariamente bíblico) de cristianismo.

Uma percepção incrível que tive sobre a igreja foi o quanto a estrutura quilombola e a igreja se mesclam e se confundem e como parece ser natural para eles a vida em igreja, o partir do pão, o cuidado pelo próximo e as orações. O líder da comunidade quilombola é também um dos líderes da igreja. Sua esposa é líder da SAF (Sociedade Auxiliadora Feminina) e faz um trabalho fantástico de ação social com as mulheres da comunidade. A igreja já abrigou projetos de educação e saúde para a comunidade e o presbítero é a primeira pessoa a quem eles recorrem quando têm um problema, pois está sempre disponível para ajudar qualquer um que precise. Lembro de escrever na resenha de um dos livros de preparação para o IPL que a Missão Integral é muito bonita na teoria, mas é elitista e não atinge a maioria das comunidades cristãs carentes da periferia. A Igreja Presbiteriana em Retiro me mostrou o contrário (embora ainda acredite que muitas igrejas ainda não têm esse acesso), pois é uma igreja que vive a Missão Integral de uma forma que eu nunca vi em nenhuma oficina, conferência ou documento, e isso foi um tapa na cara para mim.

Na vizinhança do quilombo há grandes fazendas de café, áreas que segundo estudos deveriam pertencer ao quilombo. Já há um processo judicial (aparentemente não muito em andamento) para que essas terras sejam devolvidas a eles. Muitos quilombolas vão trabalhar nessas lavouras em condições insalubres e muito análogas à escrava. O presbítero nos relatou de meninas que colhem de 8 a 10 sacas de café por dia para pagar por um alisamento no cabelo. Isso me impactou profundamente, principalmente porque na Universidade me acostumei a ler e estudar sobre racismo e herança da escravidão, mas sair da teoria e encarar de frente uma realidade tão próxima à escravidão assim mexeu muitas coisas em mim e no meu jeito de enxergar as questões raciais.

Hoje, exatamente dois meses depois de ter conhecido o Quilombo do Retiro, a pergunta que ecoa em mim é: como lidar com essas questões enquanto ABUB? Temos nos dedicado ao “serviço à igreja e à sociedade” (em todas as tribos, povos e raças) tanto quanto ao “treinamento e formação de estudantes”? Como fazer com que as questões a respeito da negritude sejam constantes em nossa pauta, não apenas no mês de novembro?

Como cristãos é importante que sejamos desafiados por essas questões, confrontados por nossos pecados, vivendo um evangelho que vai ao encontro dos marginalizados e às dores do nosso próximo. Que a cada dia possamos vivenciar o empoderamento no Espírito, adorando ao Deus que vai ao encontro dos oprimidos e nos convida a participar da sua missão.

*Luciana Petersen é estudante de Jornalismo na UFSJ, abeuense desde 2015 e participante do Coletivo Independente de Estudantes e Profissionais Negros/as da ABUB - ABUB Negritude.

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