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(…) Façais vós também!

 

Em uma ensolarada segunda-feira, fui à universidade, atualmente vou pouco lá, falta entregar somente monografia. Mas eu não poderia deixar de ir, era o inicio do meu ultimo semestre como aluno de graduação e coincidentemente, meu aniversário. 

Cheguei à cidade de Niterói (RJ) decidido a passar por uma praça, o caminho mais curto e, teoricamente, mais perigoso. Dia de sol, policiamento à vista, cenário normal... passei pelo lugar antes temido. Nada me aconteceu. Não comigo, mas não posso dizer o mesmo de um jovem preto, aparentemente em situação de rua, que recebia uma agressiva “dura” da polícia.

O jovem preto que dormia no chão coberto por alguns trapos, então abordado com um chute, logo teve que se levantar ainda mambembe, sendo em seguida puxado pela gola da camisa e escorado na parece. O que o PM queria? Por que ser agressivo daquele jeito? Estaria ele procurando drogas? Mesmo se fosse isso, era necessário agir assim?


"Não é reduzindo a maioridade penal que iremos conseguir reduzir, aliviar, os casos de atos infracionais envolvendo jovens. Entendemos como negligência do Estado. O jovem que comete ato infracional, ele é primeiro vítima do Estado. Estamos colocando a culpa nele e tirando a culpa do estado."

 Edgleidson Rodrigues, Articulador Político Juvenil do MJPOP

Faço alguma coisa ou fico aqui e finjo que não é comigo? Ou, o que eu, tão pequeno, poderia fazer? Justo no meu aniversário? Será que vai ter... tinta pra pintar os calouros?... Passei, e quis esquecer!

Mas não consegui! Principalmente porque sei que a maioria dos jovens, sobretudo pretos e pardos, são os que mais morrem no nosso país - até a Dilma assume isso (1) - e, se abordados nas ruas, têm ido cada vez mais para a cadeia, às vezes sem terem feito o suficiente para receber esta pena (2). E se for menor de idade, a mídia e parte da população que parece não querer se informar querem colocar na cadeia também (3).  Talvez eles não conheçam a realidade do sistema socioeducativo, eu mesmo conheço um pouco, já fui a uma das unidades (4).

Se soubéssemos que quase 90% dos adolescentes em conflito com a lei não completou o ensino fundamental, veríamos um forte indício de que os atos infracionais desse grupo estão diretamente ligados à deficiência na escolarização. Se soubéssemos que nós, jovens, somos mais vítimas do que algozes, uma vez que de 1998 a 2008, o número de adolescentes e jovens assassinados no Brasil cresceu quase 20% (5). Se estes jovens forem pretos e pardos, moradores de periferia, como eu e provavelmente o rapaz que levava uma “dura” do policial, a chance de ser assassinado é quatro vezes maior (6) em comparação a outros grupos. 

Mulheres e negros são 60% da população que está desempregada por mais de um ano (7). Que curiosamente é a mesma porcentagem de negros que compõem o total de pessoas que estão no sistema carcerário hoje.

Muita informação? Pois isso faz-nos constatar: Alguma coisa está muito errada! (8)

 

E Cristo nisso tudo?

Voltando-nos por alguns momentos à figura de Cristo e suas palavras, nos perguntamos: como Jesus lidaria com essa realidade cruenta? Abismados poderíamos constatar que ele já se manifestou nesse sentido e levantou bandeiras totalmente atuais.

A opção de Jesus foi sempre ao lado do pobre. O momento mais evidente dessa posição é quando declara que o primeiro bem-aventurado é o pobre (Lc 6:20), indo contra as desigualdades sociais e de gênero, assim como as violências praticadas pelos homens (Lc 10:30-37; Jo 8:5-7). E levantou-se frente à tentativa de dominação e aniquilação do diferente e ou do descrente em suas palavras, tentativa dos seus próprios discípulos (Lc 9:51-56). O Jesus homem completamente frágil, e talvez impotente como eu fiquei diante da “dura” do policial, denuncia veementemente o racismo e o sexismo em nossas estruturas sociais (Jo 4:27), e a violência do Estado (Mc 10:42-43) injusto e opressor, sobretudo para com o pobre (9). É necessário lembrar as palavras de João: Aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou (1 Jo 2:6).

 

Nosso caminho missionário

Unindo as palavra e atitudes de Jesus a o cotidiano social brasileiro, a Rede Fale Rio de Janeiro adotou, desde outubro de 2013, a campanha Jovens demais pra morrer - Fale contra o extermínio da juventude, que aborda justamente a questão da mortalidade da juventude, em especial dos jovens pobres e negros do Rio de Janeiro.

A campanha começou com vários debates sobre redução da maioridade penal, tema que se mostrou também muito importante e levou Rede FALE e o Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPOP) a lançarem a campanha nacional “Fale contra a redução da maioridade penal”.  Esta recebeu adesão de líderes evangélicos presentes no Encontro da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) e objetiva colocar em pauta a defesa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 

"Sou terminante contra a redução, principalmente porque é um desrespeito à infância, adolescência e juventude. Desrespeito porque o Estado ainda não conseguiu garantir a exigibilidade dos direitos da criança, do adolescente e do jovem. Com esse movimento não só deixa claro que não fez o seu papel de garantir os direitos dessa faixa da população brasileira, como elegeu essa faixa como corresponsável pelo estado de barbárie que foi gerado nesse país, principalmente, por falta da presença do Estado, falta da presença pedagógica do Estado e pela conivência do Estado para com o crime de colarinho branco."

Ariovaldo Ramos, pastor, conferencista e presidente da Visão Mundial 

A caminhada pela frente

Desde antes do ocorrido com o jovem em Niterói eu já me inteirava sobre o assunto, mas quando o tema deixa de ser teoria para se materializar na nossa frente, é o momento de fazer algo. Por isso, conclamo os amigos de missão estudantil para se sensibilizarem, agirem e participarem da campanha.

 

Você pode atuar:

 

  • participando das reuniões dos grupos locais da Rede FALE;
  • assinando o CARTÃO da Rede Fale; 
  • participando de grupos e ações que lutem contra a mortalidade da juventude, negação de direitos, contra a redução da maioridade penal;
  • orando para que a justiça de Deus corra como água pelo Brasil;

 

Por fim, é muito agradável e nos parece pertinente relembrar a figura do Cristo todo-poderoso, mas pobre, o humilde que revela-nos como devemos agir na vida: 

Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes(Jo 13:1-5, 12-17, grifo meu).

 

Diego Ferreira

Estudante de História na Universidade Federal Fluminense (UFF), membro da ABU Niterói e do Fale RJ

 

Notas:

(1) Disponível em: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/08/para-dilma-violencia-contra-j...

(2) Disponível em: http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/populacao-carceraria-no-bra...

(3) Disponível em: http://comuffaz.blogspot.com.br/2013/08/midia-e-reducao-da-maioridade-pe...

(4) Disponível em : www.sidneyrezende.com/noticia/205235+rebeliao+em+unidade+no+rio+de+janei... e também esse entrevista http://www.uff.br/observatoriojovem/materia/um-outro-olhar-sobre-o-siste...

(5) Mapa da violência 2011: os jovens no Brasil /Julio Jacobo Waiselfisz. -- são paulo Instituto sangari ; Brasília, dF : Ministério da Justiça, 2011.  

(6) Homicídios na adolescência no Brasil: IHA 2008 / organizadores: Doriam Luis Borges de Melo, Ignácio Cano.– Rio de Janeiro: Observatório de Favelas, 2011.  

(7) Disponível em: http://oglobo.globo.com/economia/os-excluidos-do-trabalho-9603327 

(8) Manning, Brennan. O Evangelho maltrapilho. Trad. Paulo Purim. São Paulo: Mundo Cristão, 2005 p.15. do primeiro capítulo, que intitula-se: Alguma coisa está muito errada: “—Alguma coisa está muito errada — disse o auxiliar em tom de concordância. Dobrando-se aos poderes deste mundo, a mente deformou o evangelho da graça em cativeiro religioso e distorceu a imagem de Deus à forma de um guarda-livros eterno e cabeça-dura. A comunidade cristã lembra uma bolsa de obras de Wall Street, na qual a elite é honrada e os comuns ignorados. O amor é reprimido, a liberdade acorrentada e o cinto de segurança da justiça-própria devidamente apertado. A igreja institucional tornou-se alguém que inflige feridas nos que curam, em vez de ser alguém que cura os feridos. Dito sem rodeios: a igreja evangélica dos nossos dias aceita a graça na teoria, mas nega-a na prática.”

(9)  Reflexão emprestada do amigo seminarista Ronilso Pacheco.

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