Carta dos Obreiros : Um documento para a década

 
Representando o espírito do CN e a motivação da ABUB para os próximos anos

Carta dirigida ao Movimento:

Começamos esta carta reconhecendo a graça de Deus que nos acompanhou neste últimos anos na ABUB. O Senhor tem sido bom e misericordioso. Sem Ele nada do que foi feito se poderia fazer. Para nós este momento inicial de ação de graças é fundamental porque reconhecemos que quem nos chamou é o mesmo que nos capacita para a obra que vai adiante de nós.

A mentalidade típica brasileira, acompanhando o que acontece no mundo, tem se tornado extremamente pragmática. Alguma coisa só nos parece boa se tem resultados imediatos, se funciona, independentemente dela ter ou carecer de valores morais. Outra característica típica de nossa sociedade é o individualismo, o culto da personalidade, a busca da fama, o egoísmo manifestado na luta incessante pelo poder e influência e seu fruto imediato: a solidão. Até nas nossas igrejas, que entendemos como o Corpo de Cristo, a prática dos cultos tem sido mais um aglomerado de indivíduos solitários que cantam e oram juntos (fisicamente) do que uma comunidade orgânica, fraterna, que adora ao seu Senhor enquanto Corpo. Uma outra característica da nossa sociedade é o hedonismo; a busca incessante da satisfação instantânea, do prazer como um fim. O próprio evangelho tem se tornado para alguns um produto que garante paz, satisfação, saúde e prosperidade imediata. Ouvindo um pregador moderno parece ridículo não "aceitar" Jesus, haja vista todas as facilidades que ele oferece sem nenhuma demanda séria posterior. O evangelho se torna então um produto descartável neste final de século.

A década dos noventa já começou. Como enfrentá-la responsavelmente diante de Deus que nos chama em missão no mundo universitário e profissional (com as suas dificuldades e desafios) ? Como sermos fiéis ao Senhor e à nossa geração ? A idéia comum é que temos de optar: ou somos fiéis ao Senhor e à Sua Palavra ou somos relevantes a nossa geração. Gostaríamos de sugerir que esta dicotomia é falsa. Só seremos fiéis a nossa geração se formos fiéis ao Senhor e à Sua Palavra - senão como falar a nossa geração aquilo que todos precisamos ouvir? - e só seremos fiéis ao Senhor e à Sua Palavra se formos relevantes à nossa geração - senão como fazer entendida as Boas Novas do Reino de Deus a não ser que nós contextualizemos em missão e serviço?

Queremos propor que a ênfase para os anos seguintes da ABUB seja a recuperação daquilo que se constitui a prioridade número um de todo cristão: o Reino de Deus. Para isso teremos de ter em mente três coisas: a visão deste Reino, o compromisso decorrente desta visão e o sacrifício resultante da obediência diária a esta visão e compromisso. A tentação, tanto em momentos de crise quanto de bonança, é articularmos nossas estratégias e metas basicamente em função das dificuldades e desafios que enfrentamos. Eles têm de ser enfrentados, mas não são e nem devem ser a tônica determinante. Neste momento de entrada em uma nova década temos de levantar a cabeça e, mais uma vez, fixar os nossos olhos no autor e consumador da nossa fé. Receber dEle, uma vez mais, a correção de perspectiva que necessitamos: "Em primeiro lugar, busquem o Reino de Deus e a Sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas as outras coisas" (Mt 6:33).

Mas o que significa buscar o reino de Deus e a Sua justiça para nós hoje, na ABUB? Sugerimos que significa em primeiro lugar a renovação da nossa visão do Reino, que nasce do encontro do Homem com Deus através da Palavra, da obediência e das descobertas (ou redescobertas) reveladoras deste encontro; uma visão profunda e renovada de quem é Deus: da Sua santidade, do Seu caráter, da Sua justiça, do Seu cuidado com o necessitado, de quem somos nós, da nossa natureza como criaturas, da possibilidade de amizade com Ele e do nosso valor e limitações, e, finalmente, do nosso chamado: nossas responsabilidades e privilégios como redimidos e como participantes no Seu projeto para o mundo. Tal como aconteceu com todos os homens e mulheres de Deus através da história bíblica e da Igreja (Ex.: Is 6), esta renovação da visão do Reino implicaria em primeiro lugar, para a ABUB, confissão diante da percepção da santidade de Deus. Confissão das próprias falhas e pecados do movimento como também identificação - tal como foi Neemias - com os pecados da sociedade na qual vivemos e, em especial, do mundo universitário e profissional: "Temos procedido corruptamente contra Ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os Teus juízos" (Ne 1:7), Um sentido renovado do caráter de Deus e dos Seus propósitos, seguido da nossa conseqüente confissão, é necessário. Da mesma forma, a conseqüência necessária será a nossa identificação - aliada a um cuidado amoroso e pastoral - com os problemas sérios da realidade brasileira; num esforço de contextualização, encarnação e serviço.

Em segundo lugar, buscar o Reino significa compromisso com o Reino. O Deus que enviou Seu próprio Filho também nos envia. Compromisso com o Reino é a resposta própria à graça recebida. Isto implica antes de tudo que não somos chamados a agir meramente em função das necessidades ou com base na nossa impulsividade, por mais bem motivada que seja, mais em função da agenda recebida do Rei, "Depois subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto Dele. Então, designou doze para estarem com Ele para os enviar a pregar" (Mc 3:13). Isto implica que relevância, para a ABUB, passa necessariamente pela redescoberta da oração e do jejum. O compromisso com o Rei exige que antes de sairmos para a luta, antes mesmo da proclamação e da ação, devemos aprender a nos aquietar diante dEle e aprender a ouvir.

Compromisso implica também em não nos conformamos com a mentalidade moderna da acumulação, da armazenagem de informações recebidas, mesmo que sejam informações evangélicas. O conhecer bíblico inclui como elemento fundamental a obediência. Isto implica que o ciclo vicioso de coletar cursos, acampamentos, Cursos de Férias, IPLs e Congressos, como fins em si mesmos, precisa ser quebrado. Precisamos aprender a ser responsáveis por aquilo que aprendemos. Uma mudança de mentalidade se faz necessária. Ensino é para compromisso. Queremos ver os obreiros e a liderança estudantil e profissional da ABUB não só como pessoas que conhecem a respeito de evangelização, de discipulado, da necessidade de vida devocional, da importância da participação política e social, mas como pessoas que, de fato, sejam evangelizadoras e forjadoras de discípulos, que cultivem amizade e vida com Deus e que tenham uma presença cristã no mundo marcada pela ética deste Reino. Precisamos portanto descobrir os mecanismos de defesa que nos impedem de cruzar a ponte que une a teoria e a prática; os obstáculos à integração entre conhecimento e caráter cristão. E isto em todos os níveis.

Em terceiro lugar, uma visão renovada do Reino de Deus e do conseqüente compromisso com Ele vai nos levar a sacrifícios. Não há nada de novo aqui, Jesus nos advertiu desde o princípio: "Se alguém quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz, e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida, perde-la-á, e quem perder a vida por minha causa, acha-la-á." (Mt 16:24-25). Sacrifício foi supremamente exemplificado em Cristo; sua vida inteira até a cruz foi uma vida de sacrifício, abrindo mão das suas prerrogativas como Filho e se dando até a morte. Na verdade, sacrifício e sofrimento nunca foram vistos na história da Igreja como acidentes na vida cristã, mas como a norma de todos aqueles que buscam em primeiro lugar o Reino de Deus e Sua Justiça. Paulo diz com muita clareza algo que tem sido provado por cristãos através dos tempos: "Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos" (2Tm 3:12), em perfeita concordância com Jesus, que advertiu: "Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós", "E tenho vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis" (Jo 15:20;16:1).

Portanto, precisamos redefinir, à luz das Boas Novas do Reino de Deus e exemplificando com uma prática de vida coerente, os conceitos do direito próprio, de poder, de propriedade, de sucesso, de auto-imagem e de vida plena, segundo o exemplo dado por Jesus e expresso em Filipenses 2:4-11. A ABUB é chamada a dar uma contribuição neste processo, formando uma nova geração de líderes que sejam exemplos vivos das Boas Novas. Numa época onde a ênfase está em sacrificar valores em função de resultados imediatos (pragmatismo) - propomos a visão do Reino de Deus. Numa época egoísta, onde a ênfase está em sacrificar os outros e seus direitos em benefício de si mesmo (individualismo) - propomos o compromisso com Deus e com os outros, que é a essência da vida cristã. Numa época onde se sacrifica tudo: valores, família, amigos em função do prazer e da satisfação dos sentidos (hedonismo) - propomos sacrifício de vidas gastas e vividas para os outros, segundo o modelo de Jesus.

Somos chamados a viver de acordo com uma outra ordem, com um nova visão, a partir das Boas Novas do Reino e do nosso valor como seres criados à imagem e semelhança de Deus. Somos chamados também a morrer para nós mesmos, tomar a cada dia a nossa cruz e seguir a Cristo, não nos conformando com os padrões do mundo, mas sendo transformados pela renovação da nossa mente. E aí, então, experimentarmos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Só que, termos a visão do Reino e nos comprometermos com o Rei implica em sacrifícios. Mas implica também em ressurreição e vida. Nova vida. Se o grão de trigo que é lançado na terra não morrer, ele fica só ; mas se morrer dá muito fruto.

" Aquele que começou a boa obra em vocês, há de completá-la até o dia de Jesus Cristo" (Fp. 1.6)

Página 08 - ABUgrafia Edição Especial

Leia ainda: Pacto de Lausanne, Vision 90
 
voltar a RECURSOS